Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio

Por Felipe de Albuquerque

Gosto do silêncio que emana de todas as arestas do apartamento. Fechando os olhos, eu até consigo alcançar a alguns lances de escada e uma inclinação à direita e, após, à esquerda, a algazarra que fazem as crianças enquanto brincam de pique-esconde na área comum do prédio. Também é possível perceber que, mais a frente, um grupo de jovens universitários reunidos na churrasqueira tentam conversar mais alto que as músicas sertanejas que embalam o encontro; logo ao lado, no caminho que leva ao portão principal, um cachorro late para o outro enquanto seus tutores, sem graça pelo desconforto, cumprimentam-se. Aqui no silêncio eu visualizo cenas e ruídos de fora. Mas eles geralmente não me alcançam.

Na maior parte do pouco tempo em que passo no apartamento somos apenas eu e as arestas. E o som dos meus pés contra o piso áspero percorrendo a estreita cozinha para preparo de algum alimento à beira da pia e do fogão. Como quando ontem mesmo, perambulei como barata tonta para preparar uma comidinha teoricamente rápida. A cozinha me lembra que não me sentia tão desastrado assim desde a última vez, quando criança, joguei o apontador fora e fiquei com as raspinhas do lápis de cor nas mãos.

Pica e refoga alho e cebola. O atrito da faca contra a madeira e, depois, o próprio som dos alimentos que incendeiam o espaço com seus aromas de cocção. Vez ou outra, distraído com qualquer atividade, inclusive cozinhando, também tenho o hábito de emendar uma conversa comigo mesmo em voz alta ou balbuciar o refrão de alguma música. Assim, aos poucos e por uns breves instantes, rompo o silêncio do ambiente só para me provar que está tudo sob controle. E que tenho alguma ação sobre a quietude. Mas logo em seguida, ela avança novamente e me amansa. Continuar lendo “Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio”

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Kubrick, inclusão e ocupação: Cine Teatro Cuiabá promove mostra a preços simbólicos

 

Em uma mistura de inclusão, e ocupação de espaço, o Cine Teatro Cuiabá exibe a partir desta terça-feira (21), obras de diretores famosos que marcaram gerações. Com preços quase simbólicos, a Sessão Encontros com Cinema devolve ao edifício sua relevância no cenário cultural cuiabano e proporciona, até o dia 9 de maio, um encontro com o diretor Stanley Kubrick, escolhido para nomear a mostra. Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) e Lolita (1962) serão algumas dos clássicos rodados.

Nesse embalo, acontece o segundo encontro do curso de extensão “Experimentos Cênicos a partir da distopia em Kubrick”, oferecido pela MT Escola de Teatro, para 25 alunos selecionados. As aulas tiveram início no dia 14 de março e seguem até 02 de maio, às terças, das 19h às 22h.

Os ingressos para assistir aos filmes custam R$4 (inteira) e R$2 (meia), e estão à venda, além da bilheteria, também pelo site Ingressos MT. As exibições são sempre às 19h. A mostra é um projeto em parceria com a Pró-reitoria de Cultura, Extensão & Vivência (PROCEV), Cineclube Coxiponês e Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e tem como objetivo formar plateias que se interessem em ver ou rever obras cinematográficas de cineastas prestigiados nessa área.

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E para o público infantil tem ainda o projeto A Escola vai ao Teatro, que consiste em visitas agendadas, onde alunos e professores de escolas públicas privadas conhecem o Cine Teatro e assistem a um filme. Nesta semana, a atração é Alice Através do Espelho, que é uma continuação de Alice no País das Maravilhas. Desta vez, após uma longa viagem pelo mundo, ela volta para a casa da mãe e através de um espelho mágico retorna ao País das Maravilhas, vivendo incríveis aventuras. O projeto acontece todas as terças-feiras às 15h.

Para esta semana entra em cena Lolita, que conta a história de um professor de meia-idade que se apaixona por uma adolescente de 12 anos. Apesar de não suportar a mãe da jovem, se casa com ela, apenas para ficar mais próximo do objeto de sua obsessão, pois a atração que ele sente pela enteada é algo devastador.

A jovem, por sua vez, mostra ser bastante madura para a sua idade. Enquanto ela está em um acampamento de férias, sua mãe morre atropelada. Sem empecilhos, seu padrasto viaja com sua enteada e diz a todos que é sua filha, mas na privacidade ela se comporta como amante. Porém, ela tem outros planos, que irão gerar trágicos fatos.

O Cine Teatro

Inaugurado em 23 de maio de 1942, o prédio possui 1.182m2 de área construída, incluindo teatro com plateia para uma capacidade de 515 pessoas. Foi construído em área central da cidade, na Avenida Getúlio Vargas, ao lado do antigo Grande Hotel, oportunizou grandes espetáculos cinematográficos e cênicos até fins da década de 60.

Cineteatro
Reprodução/Internet

Em outras décadas, foi sede do Banco Bemat, cedido para a Fundação Cultural de Mato Grosso e sofreu interferências na estrutura do prédio ao longo dos anos. Passou por reforma, restauro e revitalização, reabrindo as portas em 2009. Funcionou até setembro de 2014 sob regime de contrato de gestão.
Atualmente a política de gestão do Cine Teatro Cuiabá passa por reformulação. Um novo chamamento está aberto com o objetivo é transformar o espaço num centro cultural artístico-pedagógico de referência, adotando um modelo de Teatro-Escola que combinará difusão e formação profissional.

Confira a programação que ainda entrará em cena da Mostra Kubrick:

Terça 21/03: Lolita (1962)

Terça 28/03: Dr. Fantástico (1964)

Terça 04/04: Laranja Mecânica (1971)

Terça 11/04: Barry Lyndon (1975)

Terça 18/04: O iluminado (1980)

Terça 25/04: Nascido para matar (1987)

Terça 02/05: De olhos bem fechados (1999)

Terça 09/05:  Documentário: Imagens de uma Vida (2001) – Direção: Jan Harlan

Entrada: R$4 (inteira) / R$2 (meia)

Horário: 19h

 

Ser mulher no Brasil infelizmente não é tão bom

Por Juliana Fernandez

O Brasil é o pior país da América do Sul para meninas; ele também é um dos piores do mundo para garotas, ficando atrás de países como Iraque, Ghana e Índia. Segundo o estudo Every Last Girl da ONG internacional Save The Children, o Brasil ocupa a 102ª posição no Índice de Oportunidades para Garotas, publicada ano passado. A lista é composta por 144 países. Para a criação do Índice foram considerados dados sobre gravidez na adolescência, mortalidade materna, casamento infantil, representação das mulheres na política e conclusão do ensino médio.

Na lista, o Brasil se destaca por ser um “país de renda média superior, que está ligeiramente acima no índice que o pobre e frágil Estado do Haiti”, que ocupa a 105ª posição. Para a defensora pública e presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Rosana Leite, a realidade brasileira é machista, na qual a representatividade feminina é tímida.

“O homem não entende de leis que a mulher precisa, o que ajuda na hierarquização do homem sobre a mulher. As leis que protegem mulheres são muito novas, a própria lei Maria da Penha tem apenas 10 anos. Entretanto, hoje as mulheres são mais abertas ao amparo dessas leis, que são afirmativas. É um trabalho de formiguinha, mas já no ano passado houve a Primavera das Mulheres, na qual mulheres relataram os abusos e situações que passaram em suas vidas. Sou muito esperançosa sobre o futuro, especialmente no que se refere ao futuro das meninas”, comenta a defensora pública.

Em todo Brasil, vivemos rotinas e dinâmicas machistas que transformam e destroem vidas femininas desde o nascimento de uma mulher. A jovem M. R., 20 anos, sofreu uma série de abusos sexuais pelo então namorado de sua mãe aos 6 anos de idade. Segundo o relato da jovem, sua família não tinha consciência a violência pela qual a filha passava.

“Minha mãe nunca gostou que eu ficasse perto de nenhum homem, justamente por eu ser uma menina. Eu era uma criança e não entendia o porquê disso, então teimava. Quando fiz 6 anos, começaram os abusos. Ele me fazia acariciar o órgão genital dele. Por um tempo, não vi maldade nisso, para mim, era apenas um carinho em alguém que eu gostava. Mas ele começou a me dar presentes, então minha mãe desconfiou e teve uma conversa comigo sobre assédio e pedofilia, questionando ao final se eu estava passando por isso, mas eu neguei porque estava envergonhada. Logo depois minha mãe terminou seu relacionamento com ele”, lembra a jovem.

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Ilustração de Daniel Simmonds

Após o abuso, M.R. se tornou uma menina que não gostava de ser tocada pelas pessoas. Durante a adolescência, não tinha relações duradouras. Segundo ela, era porque criava repulsa tanto dela quanto do companheiro.

“Já perdi as contas de quantas vezes passei mal na rua porque homens chegaram perto de mim, ou porque eles andavam no mesmo sentido que eu. Hoje eu namoro um menino iluminado, que por ser meu amigo de longa data, atravessa esse inferno comigo todos os dias e aguenta os meus ataques de pânico. Contei sobre o abuso para a minha mãe quando fiz 19 anos. Eu tenho ciência de que preciso de ajuda, porque não é fácil lidar com isso. Mas só de pensar em falar nisso, já dói, já me deixa desconfortável. É uma coisa que, se eu pudesse, apagaria da minha história”, desabafa M.R.

Segundo a integrante do coletivo Frente Feminista da UFMT, Lígia da Silva, os dados do Índice de Oportunidades para Garotas trazem tensão, já que mostram que o Brasil ainda necessita progredir para se tornar um país no qual meninas tenham a oportunidade de atingir seu potencial máximo em toda e qualquer área de suas vidas.

“Enquanto mulher, mãe, trabalhadora e feminista, vejo que ainda temos que enfrentar uma luta muito grande para que as futuras gerações de meninas possam tomar um fôlego, sabe? Eu vejo muitas meninas falando sobre feminismo nas escolas, mas ainda não conseguimos atingir muitas mulheres. Muitas mulheres ainda são invisíveis socialmente pelo recorte de classes que nós temos. Atualmente, o número de analfabetismo em Mato Grosso é maior entre as mulheres do que entre homens. Os dados que recebemos são alarmantes; a média de feminicídios em Mato Grosso é maior que a médica nacional. Nós não temos um governo ou uma segurança que se preocupe com os casos de violência contra as mulheres”, conta Lígia.

De acordo com os dados, um dos principais problemas enfrentados pelo país é a falta de representação parlamentar. A lista “Mulheres em Parlamentos Nacionais” criada pela União Interparlamentar coloca o Brasil na 155ª posição entre países com representação feminina na política; entre os 513 deputados federais eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres. Para a cientista política Christiany Fonseca, o Brasil é um país que foi formado dentro de uma perspectiva patriarcalista, onde a figura masculina ainda está muito presente nos espaços, e isso afeta efetivamente na condição e condução de como as mulheres pautam seu cotidiano e a sua entrada no aporte político.

“Grande parte dos partidos no Brasil são comandados por homens. Ao longo dos anos, criamos formas de ampliação legal da inclusão da mulher, efetivamente, essas condições dentro dos partidos são desiguais. Não se dá condições para que as mulheres possam disputar lugares de poder em pé de igualdade com os homens. As mulheres vêm tentando lutar por uma inclusão, desde quando não tinham direito ao voto. A primeira deputada federal brasileira foi eleita em 1934, nós temos a primeira senadora eleita em 1990. A inclusão da mulher no cenário político é muito recente, e quando ela se insere ainda sofre muitas limitações”, finaliza Christiany.

 

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Autoria da ilustração sobre o texto: Daniel Simmonds.

Formas opostas de trabalhar uma franquia de games: Resident Evil x Pokémon

Por Thiago Mattos

A franquia de games Resident Evil tem sete jogos em sua linhagem principal. Produzidos pela Capcom, os games tiveram início em 1996, com Resident Evil, originalmente lançado para Playstation. Quase 21 anos se passaram até o lançamento de Resident Evil 7, no momento disponível para PS4, Xbox e PC.

A série de games Pokémon foi lançada também em 1996, com Pokémon Green e Pokémon Red no Japão (Green virou Blue quando o jogo foi lançado no ocidente, mais de um ano depois). A franquia principal sempre esteve nos consoles portáteis da Nintendo, do Game Boy ao Nintendo 3DS. Já são sete lançamentos (ou 14 jogos) da franquia principal, assim como Resident Evil.

Você deve estar se perguntando agora, ‘que diabos o cara está comparando duas franquias nada a ver’? Realmente, o que as séries têm em comum acaba no número de lançamentos principais, na idade das duas franquias e, por último, no fato de ambas serem jogos que viraram filmes BEM antes disso virar moda (está virando).

Não vamos comparar os games em si, mas sim o que Nintendo e Capcom fizeram com as franquias…

Pokémon

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Os games da saga principal de Pokémon  já venderam 232 milhões de cópias (com spin-offs o número chega a quase 300). Apenas os jogos da primeira geração, contando a remasterização FireRed e LeafGreen, comercializaram mais de 60 milhões de unidades.

É praticamente a mesma coisa de 21 anos atrás. Os desenvolvedores apostaram numa geração que cresceu jogando o game e a cada lançamento, geralmente de três em três anos, basicamente introduzem cerca de uma centena de novos monstrinhos e muito pouco além disso.

A conservadora tática nintendista deu seus frutos. Pokémon ainda consegue atrair novos fãs mirins, enquanto mantém um nicho de ‘Millenials’ que não pula uma geração. No entanto, nem tudo são flores, pois a maioria dos novos fãs, assim como as crianças que acompanharam a primeira geração, deixam o game de lado ainda que virem ‘gamers’ na vida.

Claramente, nos últimos 21 anos, a Nintendo apostou no sucesso da fórmula e na fidelização dos fãs, como quem pensa assim: ‘se 5% das pessoas que estão jogando pela primeira vez, jogarem para o resto da vida, está perfeito’.

Batalhas em dupla ou trio aqui, Mega evoluções ali, fenótipos diferentes acolá e pronto, não precisa mais do que isso.

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Pokémon Sun and Moon introduziu monstrinhos com alterações em seu fenótipo, isto é, a aparência e tipo de Pokémon pode ser diferente do padrão, como vemos nesse Vulpix de gelo. Provavelmente, a mudança mais radical promovida pela Nintendo nos últimos 21 anos.

Resident Evil

A Capcom, por sua vez, foi bem ‘vida loka’ com a franquia chamada ‘BioHazard’ no Japão. Os três primeiros games, consagraram a fórmula do ‘Survival Horror’. O jogador controla o personagem em terceira pessoa numa visão em perspectiva (como de uma câmera de segurança), a ambientação é aterrorizante, os corredores escuros, a munição escassa.

A sensação de perigo a cada canto e de que algo vai ‘pipocar’ na tela a qualquer momento são características marcantes dos primeiros jogos da saga. Até que, no belo ano de 2005, veio Resident Evil 4, ainda com uma ambientação perturbadora, mas o gênero Ação tomou conta.

A câmera agora fica atrás do jogador, o cenário é imenso e na maioria das vezes aberto, uma infinidade de armas à disposição e, no caso específico do RE4, nada dos clássicos zumbis.

Um exemplo que sempre gosto de citar é sobre as portas. No RE original, era necessário descobrir um meio de abri-las e ir explorando a mansão sem saber o que estava por vir. A partir do 4, a maioria das portas é figurativa, basta dar uma metralhada nela para abrir caminho.

A Ação cresceu e o Terror caiu ainda mais em RE5 e RE6. Até que, 12 anos após RE4, em 2017, veio o sétimo jogo, invertendo tudo de novo, trazendo a câmera para a primeira pessoa e, abertamente inspirado no game de 1996, fazendo o jogo já ser aclamado como o mais aterrorizante da franquia.

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A evolução das câmeras em Resident Evil. Perspectiva em terceira pessoa no original; sempre atrás do personagem no 4; em primeira pessoa no 7. Tanto o primeiro quando o último empregam uma sensação de vulnerabilidade, típica do gênero Survival Horror. A franquia da Capcom já vendeu 80 milhões de cópias.

Para quebrar só um pouco mais os paradigmas, os personagens clássicos também não estão no game. Dessa forma, a Capcom mostra ousadia para adaptar sua franquia àquilo que o mercado estaria pedindo no momento.

Apesar de boa parte dos fãs da franquia não terem gostado de RE4, o título é, contando os inúmeros relançamentos, o mais vendido da franquia, com oito milhões de cópias. Novamente, a Capcom recebeu muitos comentários como ‘RE7 é bom, mas não é Resident Evil’.

Goste ou não, RE7 já comercializou três milhões de cópias e deve ficar próximo ou superar RE4 em vendas. Números que avalizam que a tática da empresa japonesa, mais uma vez, deu certo.

A conclusão é de que não há uma fórmula certa para se desenvolver uma franquia ao longo de mais de 20 anos, pois, de acordo com dados compilados pela wikipedia, falamos na coluna de hoje sobre a 3ª (Poké) e a 21ª (RE) franquias de videogame comercialmente mais bem sucedidas de todos os tempos. E aí, qual estilo te agrada mais?

Para aqueles gamers mais hardcores e que gostam de uma boa sátira, encerro com os vídeos de Honest Game Trailers dos primeiros games das duas franquias.

 

Foto de capa: LLamarey/deviantart.com

As cenas mais SURREAIS do seriado Friends

Por Thiago Mattos

O seriado Friends (1994-2003) ainda é visto diariamente por milhares de pessoas ao redor do mundo. Com quase 13 anos da exibição de seu último episódio (6 de maio de 2004), a comédia que reúne Jennifer Aniston (Rachel Grenne), David Schimmer (Ross Geller), Courteney Cox (Monica Geller), Matthew Perry (Chandler Bing), Matt Leblanc (Joey Tribianni) e Lisa Kudrow (Phoebe Buffay), ainda tem espaço reservado na grade televisiva da Warner Bros.

No entanto, mesmo uma série tão aclamada tem seus momentos exóticos e até inverossímeis (o primeiro episódio, por exemplo, é repleto de erros de continuidade). Na coluna de hoje, elencamos as três cenas mais surreais em Friends.

Antes de tudo é necessário destacar: as três cenas são hilárias, porém quando se pensa um pouco sobre elas, o encanto é perdido por serem situações impossíveis.

  1. A troca de apartamentos

A aposta sobre os apartamentos, em que Joey e Chandler vencem um quiz contra Monica e Rachel. As meninas querem se livrar dos patos dos rapazes, mas Monica exagerou na proporção ao aceitar essse desafio.

Pode-se dizer que a competitividade excessiva da personagem de Courteney fez com que ela aceitasse, mas outro traço marcante de sua personalidade é a grande preocupação com organização e limpeza, o que faria com que ela nunca aceitasse ir para um ‘boys apartment’.

E quando você acha que será algo momentâneo, os personagens realmente passam alguns episódios da quarta temporada em apartamentos trocados. Tão hilário quanto impossível na vida real.

  1. Chandler e Janice vão para o Iêmen (e nunca mais se fala nisso)

Também na quarta temporada, em uma de suas tentativas de se livrar da Janice, Chandler inventa que terá que se mudar para o Iêmen por motivos de trabalho. A ideia acaba não surtindo o efeito desejado e a indesejada namorada o acompanha até o voo partir.

Chandler inclusive paga mais de dois mil dólares na passagem. E detalhe, a viagem para o Iêmen não é mencionada em mais nenhum momento durante a série, nem mesmo por Janice.

  1. Rachel cai da sacada

No fim do episódio 16 da primeira temporada, Rachel vai retirar as decorações de Natal da sacada do apartamento da Monica e simplesmente cai de lá. Quando, por um segundo, você acha que ela morreu, a loira fica pendurada por um fino cordão e pede ajuda a Mr. Heckles.

Convenhamos, essa cena é bizarra! No episódio seguinte, Monica leva Rachel ao hospital por ter torcido o tornozelo.

Menção honrosa (A cena que seria surreal)

Além desses três momentos, que julgo como os principais, podemos fazer várias ‘menções honrosas’ como: Ross errando o nome da esposa no casamento e metade das cenas que envolvem as atuações do Joey ou as músicas da Phoebe.

Destaco, como curiosidade, a cena deletada do terceiro episódio da oitava temporada. A cena que, se fosse ao ar, seria a mais surreal de toda a série. Chandler faz uma piada com a revista no aeroporto e acaba sendo levado para responder algumas perguntas.

As partes foram deletadas, pois seriam exibidas originalmente no dia 23 de setembro de 2001, duas semanas após o atentado às Torres Gêmeas no dia 11 de setembro. O ‘timing’ não foi bom e o trecho foi retirado. Confira.

Vaginismo – o corpo da mulher ainda é um tabu

Por Juliana Fernandez

Muitas vezes causado por medo e estresse excessivo, o desconforto durante a relação sexual afeta de 3% a 5% das mulheres no mundo todo. Chamado vaginismo, essa disfunção sexual é rara e pouco conhecido entre mulheres. Descrito como uma síndrome psicofisiológica, o vaginismo é caracterizado pela contração involuntária dos músculos ao redor do orifício vaginal, causando dor e até a impossibilidade de manter relação sexual. Sem causa física, o distúrbio geralmente surge em mulheres que sofreram traumas e abusos sexuais.

Uma das poucas profissionais com conhecimento da área, a fisioterapeuta pélvica Maria Aparecida Araújo Macedo conta que a disfunção afeta drasticamente a autoestima das mulheres já na adolescência.

“Geralmente mulheres vaginicas sofrem com depressão, tem uma grande dificuldade relacionamento interpessoais. A doença pode levar a casamentos não consumados e acarreta  distúrbios emocionais. Mulheres que tem vaginismo fica com autoestima baixa por não conseguir  levar uma vida sexual saudável. Por isso, é recomendado que se trate a disfunção em seu inicio, normalmente durante a juventude da mulher”, explica.

Ela também conta que apesar de sempre ocorrer nos músculos perineais e elbadores, a disfunção se divide em dois tipos: primária e secundária.

“Apesar de ambos causarem a contração dos músculos do assoalho pélvico e adutores da coxa, o vaginismo primário é quando a mulher é incapaz de manter relações sexuais devido às contrações involuntárias da parede da vagina. Já o vaginismo secundário ocorre quando a mulher teve relações sexuais, porém com dificuldade em ter a penetração e dores após a relação, que também chamamos de despareunia”, diz a fisioterapeuta.

A antropóloga Poliana Queiroz, 29 anos, conta que sentiu os sintomas do vaginismo durante sua primeira relação sexual aos 18 anos.

“No inicio, achei que era por ser a primeira relação. Com as outras relações sexuais eu também sentia muita dor. Eu continuava estudando, me tocando, pesquisando… Mas eu ainda sentia muita dor. Até ter um momento que eu não conseguia mais ter penetração alguma. Era muito dolorido, mas eu tinha desejo. Eu procurava ginecologistas e elas sempre falavam que eu precisava relaxar”, lembra.

Segundo Poliana, a falta de informação disponível sobre vaginismo dificultou tanto o diagnostico médico quanto seu autodiagnostico, que ocorreu após longas buscas em sites e redes sociais.

“Li muito até encontrar o termo ‘vaginismo’. E a explicação de uma fisioterapeuta era de que por medo e pressões, por a mulher não ser aberta a conversar sobre sexualidade, ela pode ter um retraimento involuntário na relação. Por mais que a mulher sinta desejo, ela se fecha naturalmente. Foi então que pensei ‘puts, eu tenho isso’. Pesquisando, encontrei uma fisioterapeuta aqui em Cuiabá. Ela explicou para mim o que eu tinha, e que o meu vaginismo nem era grave, em uma escala, o meu era mediano. Tanto é que o meu tratamento foi rapidíssimo”, comenta a jovem.

Poliana conta que, para sua surpresa, encontrou vários grupos de apoio em redes sociais. Neles, mulheres de diferentes idades trocam relatos e dicas sobre o processo de cura da disfunção.

“Através das redes sociais, encontrei grupos de meninas e entendi que essa é uma doença que atinge diversas mulheres e pouco se fala sobre o assunto. Por eu ser antropóloga e ter estudado gênero, e saber das pressões sociais que as mulheres sofrem, acho que este assunto precisa ser discutido mais abertamente. Assim, mais mulheres terão ciência da doença, já que muitas passam por isso sem saber que existe cura”, explica Poliana.

De acordo com Maria Aparecida, o primeiro passo do tratamento é a consulta com um ginecologista, que irá expor a situação e certificar se a mulher realmente possui vaginismo.

“Seguindo essa consulta e fechado o diagnostico, é aconselhável iniciar o tratamento com um fisioterapeuta especialista na área. Dependendo do caso, é recomendável tratamento psicológico conjunto com um profissional que atue na área da sexualidade. Muitas mulheres tem receio de procurar ajuda profissional, assim como temos profissionais não capacitados. O tratamento recomendado contém exercícios para o assoalho pélvico, terapia manual, eletroestimulação, massagem perineal, liberação de pontos de gatilho e uso de dilatadores vaginais”, expõe.

Para Poliana, é preciso que a classe médica se sensibilize com as doenças sexuais femininas, para que assim aja uma maior propagação de informação entre médicos e pacientes.

“Na verdade, o vaginismo não é considerado uma doença. Porque o prazer feminino, historicamente, é um pecado. E isso é internalizado pelas mulheres, que não se percebem como doentes porque não tem informação e não sabem que isso pode ser tratado. No meu caso, através dos grupos do Facebook eu conheci outras pessoas que passavam por situações similares à minha. Mas eu também acho que tem que ocorrer grupos de estudo, e principalmente, tem que ocorrer dialogo para que as mulheres possam se tratar e ser  felizes”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Ensaio sobre escoliose: breve reflexão de um jovem gay

Por Felipe de Albuquerque

Enquanto eu encarava a parede branca, a profissional investigava minhas costas nuas tentando desvendar a causa de um desconforto que, muito esporadicamente, vem me habitar na região das escápulas. Silenciosa, ela seguia observando minhas tangentes e digitando em seu computador o que eu supunha serem os indícios da trajetória irregular de algumas vértebras. Eu estava ali no consultório fisioterápico, com os pés descalços, na melhor versão de mim em minha boa postura. “Preciso que agache sem dobrar os joelhos, os braços repousando a frente do seu corpo”, ela disse, analisando-me desengonçado, agora de perfil. Eu estava arrasando com minha flexibilidade amadora, pensei, enquanto me concentrada em respirar para não desmoronar.

Quando me sentei em frente à mesa, após toda aquela avaliação, a fisioterapeuta só não disse que estava tudo bem. “Escoliose”, “encurtamento muscular”, “leve torção nos quadris” foram alguns dos diagnósticos que levo do consultório desde então. Após enumerar estas falhas posturais, que não poderia deixar de corrigir para evitar dores mais sérias posteriormente, ela me posicionou diante de um grande espelho enquanto, ponto a ponto, foi me encaixando como um quebra-cabeças numa posição tanto quanto distante da “melhor versão de mim em minha boa postura”.

Ali estava o que eu poderia/deveria ser. Com o dorso mais elevado, os ombros voltados para trás pressionando as omoplatas; o queixo para cima e as mãos repousando ao lado do corpo, a imagem virtual que se formou refletia um desconfortável alguém; no caso eu mesmo, forjando uma postura confiante. “Se te chamarem de convencido por causa da postura, você recebe como elogio, porque é assim que saberá que está bem”, incentivou ela. No decorrer dos dias, tento imaginar que há um prendedor de roupas gigante me segurando pelo dorso, evitando minha derrocada.

Começamos a primeira sessão de Reedução Postural Global (RPG). Sobre uma maca, ela me colocou numa posição que me lembrou yoga – só que menos hard – e lá fiquei estagnado, concentrado na minha própria respiração por uns 20 minutos. Encerrada a sessão, tornei a me sentar em frente à fisioterapeuta, do outro lado de sua mesa, enquanto ajeitava a roupa dentro da mochila e conversávamos sobre os aspectos que, para além da dura rotina dos dias, podem nos levar ao desenvolvimento de pequenas ou grandes lesões ao nosso corpo.

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Escondendo uns sentimentos lá no fundinho do peito || Xavier Lucchesi

Ela endossou meu comentário de que, por questões psicológicas e sociais, nossos corpos também são empurrados para dentro, com as forças que nos atingem de todas as direções e nos força a proteger o que mais temos de precioso e íntimo: nossos sentimentos, que se alojam e tentam se esconder nas cavidades mais profundas de nosso peito.

Confesso que, desde aquele dia, que foi a primeira vez em que visitei um consultório de fisioterapia em aproximados 25 anos, pego-me refletindo sobre como todos estes vetores sociais e psicológicos me atingiram ao longo de minha vida. Além da timidez, com a qual brigo até hoje, tenho diversas fragilidades que me inibem, até mesmo, a expressar minha visão sobre os dias, sobre as coisas; a gritar e a enfrentar pequenas agressões cotidianas; a me posicionar no mundo.

No todo, sei que as sociabilidades de crianças e adolescentes não são fáceis. Crescer nos rasga de dentro para fora e de fora para dentro e algumas destas experiências nos torna mais fortes e preparados para as dificuldades que nos aguardam a vida adulta. Mas quando um jovem menino é descoberto homossexual, como foi o meu caso, esta fase da vida tende a ser ainda mais dolorosa.

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É difícil encaixar-se dentro das estruturas || Xavier Lucchesi

Apesar de alegre e quase sempre confortável com todas as minhas mudanças físicas e psíquicas no decorrer deste período da vida, sempre foi sufocante lidar socialmente com a minha orientação afetiva/sexual. Recordo-me, por exemplo, que apesar de gostar de jogar futebol com os meninos, sempre era pisoteado em minhas falhas. Era preciso ser o melhor para compensar a minha falha em ser homossexual – e eu simplesmente não era –. Aos poucos, deixei para lá o esporte e hoje mantenho distância e muitas críticas a boa parte dos fanáticos pelo esporte.

Dentre inúmeras outras situações, lembro-me de fazer o possível para chegar o quanto antes à sala de aula para evitar ser notado pelos colegas e ouvir algumas palavras que me atingiam fisicamente. Durante as aulas, era impensável solicitar ao professor a saída ao banheiro, porque, novamente, eu teria de enfrentar algum constrangimento. Passar em frente aos colegas jamais. Dia após dia, torna-se cansativo passar por estas situações e eu preferia só evitar, poupar-me.

Hoje, leio a notícia infeliz de que um casal homoafetivo que mora no norte do Rio de Janeiro recebeu em sua casa uma carta com dizeres bíblicos, homofóbicos e racistas solicitando que se mudem por serem “abominações”. Como outrora, estas palavras vão se alojando nas costas, pesando nos ombros e tentando atingir bem lá no meio do peito. Sinto a dor destes irmãos, que devem ter vivido uma realidade muito próxima a minha e passaram por tamanha brutalidade.

Infelizmente, nem a sobrevivência a toda sorte de sofrimento de uma vida poderia preparar este jovem casal para enfrentar tamanho ódio pela sua própria existência. “Eu não tenho dormido. Não tenho comido. A minha vida está paralisada. Eu tenho medo de acontecer de novo. Eu tenho medo de sair na rua e acontecer alguma coisa. Tenho medo que a pessoa que fez isso consiga reverter essa história a favor dela e contra a gente. Só medo, medo e medo”, diz Maycon Aguiar, 23 anos. Como pode alguém sofrer ameaças por amar? Ainda por cima em nome de Deus, que em inúmeras passagens bíblicas pontua o respeito ao próximo?

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Quer dizer que as bonita tão falando mal de mim?! || Xavier Lucchesi

São situações como estas, amedrontadoras, que nos desestabilizam não apenas internamente, mas se manifestam, gradativamente, em nossa pele, nossas vértebras e estruturas, furtando-nos de uma vida mais salutar, transformando nossos corpos que, em vão, seguem tentando se proteger para evitar momentos ainda mais profundos de tristeza. Talvez este texto não dialogue com os milhares de jovens gays e lésbicas que passam e vão passar por inúmeras situações de constrangimento.

Estou na iminência de completar 25 anos – pisces rules – e ainda hoje ouço em todos os ambientes que frequento piadas sobre a sexualidade de outrem associado aos adjetivos “bichona”, “viado”, “sapatão”, “traveco”. Não sei por qual motivo, as pessoas que falam pejorativamente tais termos desconsideram a minha presença e identidade e o fato de que eu poderia me incomodar com isso. Na maior parte das vezes, tenho feito questão de me posicionar.

A diferença, queridos pares, é que a gente aprende a enfrentar estas inúmeras situações. Seja sutilmente, ignorando, ou seja se posicionando, falando, escrevendo, o enfrentamento é libertador. Aos poucos, com o tempo – confiem no tempo, por favor, acreditem em mim – encontramos meios de desviar ou não ser atingidos tão profundamente pelas palavras que se alojam em nosso corpo e nos inibem de viver. Se atingidos, conseguimos superar mais facilmente, com o apoio de familiares, amantes, amigos e profissionais da saúde. Conquistamos alguma liberdade e vamos encaixando a alma ao corpo e nos sentindo bem no quebra-cabeças que refletimos no espelho.

Hoje as costas já doem menos.

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Sexo, Tinder e Rock ‘n’ roll

O amor contemporâneo é digital

Por Marcelo Dantas 

Entre um e outro gole de cerveja no Hookerz, na Filinto Müller, meu amigo Pedro, 23, fez uma revelação a nossa roda: “Perdi minha virgindade com um cara que conheci no Tinder”. O imediato silêncio da turma passou despercebido em meio ao rock que tocava no pub, mas uma pergunta curta e grossa logo retomou a conversa e rendeu boas risadas: “Doeu?”

Ninguém sabia que ele, universitário da Federal que se gabava por ficar com belas mulheres, era gay, e ninguém do grupo se lembrava de tê-lo visto no Tinder — app em que todos nós estávamos. “Passei pelo perfil de todos vocês”, disse ele, mordendo o mini-hambúrguer da casa e lançando mão de pergunta que seria a tônica da abafada noite de sexta-feira: “O que estão buscando lá?”

Para quem não está familiarizado, Tinder é um aplicativo de paquera para celulares que permite que as pessoas se conectem por meio de um simples deslize de dedo sobre a tela. Integrado ao Facebook, você começa a ver fotos de usuários nas proximidades, um por vez. Pode aprová-los, deslizando o dedo para a direita, ou descartá-los, deslizando-o para a esquerda. Sendo o interesse mútuo, o software notifica as duas pessoas, que podem conversar num bate-papo privado. O serviço chegou ao Brasil no final de 2013 e contava, já em 2014, com 10 milhões de usuários.

“Sexo”, respondeu Bianca, 34, analista de um tribunal na capital. “Busco sexo. Tinder é um cardápio, igual a este”, finalizou, apontando para o menu do bar. Túlio, 18, estudante de pré-vestibular, balançou a cabeça concordando: “É uma vitrine com vários produtos, que nem a da loja aqui ao lado”.

Pontos de vista expressivos, e que seriam debatidos pelo grupo.

“Tudo depende do uso que você faz dele”, observou Cláudio, 41, advogado. “Acho que os interesses são os mais diversos possíveis. Sexo, romance, amizade, curiosidade”, disse. “Particularmente, quero conhecer gente nova. Passo o dia inteiro no escritório, debruçado sobre processos, até mesmo aos finais de semana. É complicado interagir, e o Tinder ajuda”, admitiu, pedindo ao garçom nova rodada de bebida.

“Mas qual a qualidade dessas interações?”, interrompeu Denise, 27, médica residente. “São relações superficiais, baseadas numa foto e que podem acabar com um simples apertar de botão”, pontuou. Essas afirmações me fizeram lembrar de “Amor Líquido”, obra de Bauman indicada pelo professor Orione no meu 4º ano de Direito. O sociólogo polonês sustenta que, na “modernidade líquida”, nada é feito para durar, para ser “sólido” — especialmente nossas relações.

“O Tinder está é expandindo a forma como nos relacionamos, Denise”, discordou Cláudio. “Conheci pessoas que talvez jamais conheceria. Toda relação é superficial no início, sobretudo a virtual. Mas a química só acontece quando há, de fato, diálogo e contato pessoal”, afirmou. “O aplicativo está fazendo com que encontros virtuais se tornarem reais”.

O cofundador da plataforma, Justin Mateen, parece concordar. Em entrevista ao caderno Tec, da Folha de S. Paulo, em 2013, ele responde que o Tinder é “um reflexo honesto da interação humana”, acentuando que, “quando você conhece alguém em um café, a primeira coisa que nota sobre ela é sua aparência física. Na conversa, você busca semelhanças como amigos ou interesses mútuos”.

“Além disso, percebo que o aplicativo tem contribuído com a socialização dos gays em Cuiabá”, atestou Pedro. “Socialização, não apenas sexo. Muita gente ainda está trancada no armário, por conta do preconceito, e o Tinder permite fazer amizades sem se expor tanto. É um primeiro passo”.

“E você, Dantas, o que acha?”, me questionou Bianca. “Acho que este será o tema do próximo artigo”, respondi. “Apesar de popular, o Tinder é tabu. Tanto que tenho certeza que terei de mudar o nome de vocês ao reproduzir os diálogos, estou errado?”, perguntei. Não estava.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

Autoreverência através do Big Chop

Por Juliana Fernandez

Com o boom de alisamentos no fim da década de 90 e inicio dos anos 2000, meninas de cabelos crespos e cacheados aprenderam submeter seus cabelos à pesadas químicas desde cedo.  Influenciadas pela família, amigos e televisão, elas abriram mão dos cachos por cabelos mais lisos e, pelo menos em teoria, mais fáceis de cuidar. Essas garotas tentaram de tudo um pouco: de escova progressiva, definitiva e inteligente até relaxamentos. Com ou sem formol. Entretanto, a partir de 2010 essa geração de meninas, unidas através da internet, começou a se perguntar se o que procuravam era realmente um cabelo mais prático, ou se o que buscavam era uma maneira de serem incluídas na sociedade. Foi o inicio de uma geração de jovens – especialmente negras -, com tranças, turbantes e muito cabelo natural.

A busca pelo cabelo sem química não é fácil. Para conseguir os cachos de volta, elas passam pela transição capilar, que é um processo no qual os tratamentos de alisamento são abandonados para que o cabelo cresça sem química. O processo pode ser um baque à autoestima, já que a raiz do cabelo cresce com a textura natural enquanto o resto do cabelo continua liso. A transição capilar pode durar anos, dependendo do tamanho do cabelo de cada uma. A norma é o cabelo alisado, e muitas garotas começam a ter seus cabelos alisados por mães, tias e avós ainda na infância.

Estudante de arquitetura, Gizele Mesquita não lembra quando começou a relaxar o cabelo. A jovem de 24 anos teve seu cabelo relaxado por suas tias.

“Eu era muito pequena e morava com as minhas tias. Tem que ter paciência para lidar com o cabelo crespo. Como eu não sabia cuidar, e as minhas tias tinham outras coisas para fazer, elas acharam melhor que eu começasse a relaxar o cabelo para facilitar o penteado. Com o tempo, meu cabelo ficou sem forma. Eu usava Hair Life, que fedia muito. Era uma coisa bem complicada”, lembra.

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Ilustração de Ojo Agi.

Ela decidiu trocar de química aos 15 anos e começou a usar Guanidina, que é na verdade uma mistura de carbonato de guanidina com hidróxido de cálcio. O produto queimou seu couro cabeludo e chegou a criar cascas em sua cabeça.  Com história semelhante, a publicitária Leilaine Rezende, começou a relaxar o cabelo com 13 anos.

“O meu cabelo sempre foi rebelde e volumoso. Ele era contido em um rabo de cavalo no topo da cabeça, com a frente bem lisa, rente ao couro cabeludo e sufocada por muito creme. Isso gerava uma caspa sem igual. Tinha vontade de tê-los soltos. Foi quando uma cabeleireira, amiga da família, sugeriu que eu fizesse um relaxamento leve”, conta Leilaine. Por causa da química, seu cabelo passou de loiro escuro para ruivo queimado, cor que segundo ela, lembrava água de salsicha.

A decisão de voltar ao cabelo natural não foi fácil para ambas. O processo de transição capilar de Gizele começou em 2014, quando foi selecionada para um intercambio em Portugal. Após chegar ao país de destino, notou que o produto utilizado para alisar os fios não era encontrado na região.

“Eu fui deixando, e as pessoas lá achavam bonito o cabelo cacheado. Eu achava muito feio do jeito que estava, com a raiz grande. Mas os meus amigos e conhecidos de lá elogiavam bastante. O meu cabelo era mais um na multidão, eles não estavam nem ligando se a raiz estava aparecendo ou não. Ao mesmo tempo, eu recebia mensagem por inbox de amigos e família aqui no Brasil que pediam para eu pentear ou alisar meu cabelo”, explica.

Quando voltou para Cuiabá, Gizele já havia decido parar de alisar o cabelo. Sua decisão chocou sua família e seus amigos. Ela conta que, além de receber criticas e olhares incomodados, precisou lidar com amigos que decidiram realizar uma intervenção para que alisasse o cabelo.

“Para os meus amigos, eu estava passando muita vergonha. Eles falaram que as pessoas estavam comentando sobre o meu cabelo. Meus amigos perguntaram se eu penteava meu cabelo e se eu tinha espelho em casa. Para eles, eu precisava ‘dar um jeito’, como se fosse fácil, como se só a fala deles pudesse tornar o meu cabelo super hidratado. E eu tenho que levar em consideração que faço arquitetura, que é um curso que preza pela aparência”, relembra a estudante.

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Ilustração de Ojo Agi.

Após o episódio, Gizele realizou o Big Chop, ou BC (Grande Corte, em português). Maneira literal de cortar o mal pela raiz, no BC é removido todo comprimento do cabelo que tenha química. Algumas mulheres chegam a raspar os cabelos, outras cortam as pontas aos poucos até retirar toda a química do cabelo. Quando Leilaine fez o BC em novembro de 2012, as pessoas mais próximas se assustaram.

“Me chamavam de louca, inconsequente e de sapatão. Achavam que eu tinha perdido a vaidade e que isso me faria perder o namorado. Sofri muito. Chorava quando tinha que sair e não sabia que roupa me deixaria mais feminina e menos girafa”, revela.

Segundo Gizele, assumir os cachos a ajudou a se sentir mais empoderada, além de se assumir enquanto mulher negra.

“Antigamente, eu tentava embranquecer nessa cultura do branqueamento. Eu falava que meu cabelo era cacheado, mas não é. Ele é crespo. Leva um tempo para a gente aceitar e saber lidar com esse tipo de coisa. Porque ter cabelo crespo é assumir ser negro, e isso é complicado na sociedade que vivemos. Foi meio que paralelo o empoderamento em relação ao meu cabelo e a questão racial mesmo. Não tem como isso ser separado”, conta.

Para não desistir do processo de transição capilar, tanto Gizele quanto Leilaine contaram com o apoio de outras mulheres cacheadas e crespas através das redes sociais. “Elas foram essenciais no meu processo de aceitação, de afirmação de identidade e de contato com os cuidados ideais para o meu cabelo natural. Foi através do Instagram e do Facebook que eu aceitei que meu cabelo tinha a sua beleza, que existem técnicas mais naturais para realçar a textura e a saúde dos fios crespos. Vi quais eram as questões sociais e políticas que envolviam o preconceito sofrido e isso fortaleceu mais a minha decisão de assumir”, comenta Leilaine, que hoje administra o Ninho de Cacho, um perfil no Instagram sobre aceitação e enaltecimento do cabelo natural que conta com mais de 3 mil seguidores.

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Ilustração de Ojo Agi.

O coro é reforçado por Gizele.“É como você estivesse no consultório de um psicólogo. As meninas dão apoio. Tem menina que posta foto e escreve que não está mais aguentando as criticas da família e dos amigos. Ai vem 70, 80 meninas mostrando fotos dos cabelos delas, falando para não desistir e mostrando o antes e o depois. Sempre tem depoimentos de pessoas que passaram pela transição, aconselhando as meninas a não desistirem.”

A publicitária Jessyca Silva, de 25 anos, está em processo de transição capilar há 15 meses. Para ela, não só as redes sociais se tornaram peça de apoio para quem deseja passar pelo processo, mas também os movimentos sociais.

“A internet me ajudou bastante em relação a como cuidar do cabelo, quais produtos usar e empoderamento. Ver outras mulheres que passaram por isso e hoje tem cabelos cacheados lindíssimos ajuda muito. Os movimentos sociais com mulheres também me ajudam bastante. A gente se sente melhor ao ver que existe tantas mulheres iguais a você, com os mesmos medos, dramas e cabelos. É muito bom quando a gente se liberta do que deveríamos ser, para finalmente ser apenas a gente”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Experiência cíclica padronizada: uma reflexão sobre o passar dos anos

Por Thiago Mattos

A coluna de hoje é um relato mais pessoal. Inspirado pelas festas de fim de ano, em que familiares ressaltam a importância da gratidão e da esperança no Natal e fazem diversas resoluções de ano novo para os próximos 365 dias, fiz muitas reflexões sobre o tempo e sobre como tratamos de organizá-lo em ciclos.

Isso mesmo, ciclos! Pessoalmente, tento ser a mesma pessoa os 365 dias do ano, mas não adianta, ninguém consegue. Nós acabamos de certo modo sendo afetados por essa padronização de sensações que cada mês parece emanar.

É verdade, o ano começa no carnaval

As pessoas extravasam, viajam, comem coisas diferentes, veem pessoas diferentes, fazem sexo, loucuras, brigam com amigos antigos e fazem novas amizades. Tudo isso numa intensidade insana que dura quatro dias.

Aí vem aquele período conhecido como quaresma, em que até você que não é cristão acaba sendo contagiado. Além das pessoas mais tradicionais, que praticam o jejum, quem nunca ouviu pelo menos uma dessas promessas:

‘não vou comer carne/não irei ao McDonalds/ não vou beber/não vou fumar/não vou mentir/não vou ver TV/não vou jogar videogame’.

É um período de renúncia e mortificação. Na prática, é a penitência pós-carnaval, momento de contrabalancear os excessos. Curiosamente, nenhuma data comemorativa ‘atrapalha’ esse período, que termina na semana santa.

Normalidade chata

A essa altura, estamos perto do mês de maio e o ano enfim chega a uma normalidade. Para sair um pouco da ‘chatice’, o calendário nos oferece doses homeopáticas de prazer: ‘dia das mães’, ‘dia do namorados’, ‘festa junina’, ‘dia dos pais’, ‘dia das crianças’. Datas cuidadosamente espalhadas entre maio e outubro.

O período de seis meses, que vai de maio a novembro, é o intervalo de 180 dias em que o ano de fato acontece. A maioria das pessoas está envolvida (seriamente) com seus trabalhos e a vida cai naquela rotina extenuante, uma maratona de resistência em busca de uma recompensa final.

Que recompensa? A Black Friday claro!

A data importada começou em 2010, apenas online, e cresce a cada ano no Brasil. Hoje já virou ‘black week’, ‘black november’, aquele toque de exagero comum a nós tupiniquins. Posterior a um período de seis meses de muita rotina para todos, o capitalismo viu uma janela de oportunidade para criar o carnaval do consumo.

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O tempero brasileiro na Black Friday (Créditos: Netshoes)

A Black Friday já funciona como o início do fim do ano no Brasil. Convenhamos, a data caiu como uma luva. Todo mundo fica feliz com as compras e aí chega dezembro, momento de agradecer a tudo e a todos por mais um ano que se vai, mais fácil ainda aproveitando as compras ‘70% off’. Quem sabe você já até conseguiu fazer as compras de natal ainda em novembro?

Hora de celebrar, o fim de ano é o ‘carnaval’ da família, onde todos os exageros, exceto o sexual, são novamente celebrados. A mesa farta, as viagens, as festas, a vitória da família contra mais um ano.

Vem a ressaca de início de ano. Em tese, voltamos a trabalhar em janeiro, mas todos estão em marcha lenta, os adultos pagam IPTU, IPVA e material escolar, enquanto os jovens vivenciam aquela volta às aulas fake, só pra dizerem que não ficaram de férias até o carnaval.

É aí começa tudo de novo. Segundo o IBGE, o brasileiro vive esse ciclo 75 vezes em média…