Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio

Por Felipe de Albuquerque

Gosto do silêncio que emana de todas as arestas do apartamento. Fechando os olhos, eu até consigo alcançar a alguns lances de escada e uma inclinação à direita e, após, à esquerda, a algazarra que fazem as crianças enquanto brincam de pique-esconde na área comum do prédio. Também é possível perceber que, mais a frente, um grupo de jovens universitários reunidos na churrasqueira tentam conversar mais alto que as músicas sertanejas que embalam o encontro; logo ao lado, no caminho que leva ao portão principal, um cachorro late para o outro enquanto seus tutores, sem graça pelo desconforto, cumprimentam-se. Aqui no silêncio eu visualizo cenas e ruídos de fora. Mas eles geralmente não me alcançam.

Na maior parte do pouco tempo em que passo no apartamento somos apenas eu e as arestas. E o som dos meus pés contra o piso áspero percorrendo a estreita cozinha para preparo de algum alimento à beira da pia e do fogão. Como quando ontem mesmo, perambulei como barata tonta para preparar uma comidinha teoricamente rápida. A cozinha me lembra que não me sentia tão desastrado assim desde a última vez, quando criança, joguei o apontador fora e fiquei com as raspinhas do lápis de cor nas mãos.

Pica e refoga alho e cebola. O atrito da faca contra a madeira e, depois, o próprio som dos alimentos que incendeiam o espaço com seus aromas de cocção. Vez ou outra, distraído com qualquer atividade, inclusive cozinhando, também tenho o hábito de emendar uma conversa comigo mesmo em voz alta ou balbuciar o refrão de alguma música. Assim, aos poucos e por uns breves instantes, rompo o silêncio do ambiente só para me provar que está tudo sob controle. E que tenho alguma ação sobre a quietude. Mas logo em seguida, ela avança novamente e me amansa. Continuar lendo “Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio”

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Irregularidades alimentares em tempos de luto

Por Juliana Fernandez

Quebro o ovo direto no prato. Tal qual um mau presságio em um mito grego, o que cai no macarrão instantâneo não é um ovo com gema amarelinha e saudável. Para o meu horror, uma gosma preta lovecraftiana entra em contato com o resto da comida, o negrume se dissolve no caldo vermelho, o cheiro de morte chega com força nas minhas narinas. Abafo um grito de desespero e com um pouco de pesar e bastante alívio jogo o jantar fora. Refaço a refeição com novos ingredientes, sem o ovo. Engulo tudo rapidamente, um tanto desanimada.

***

O acontecido se dá durante a noite, quando, como de rotina, preparo um miojo Turma da Mônica (sabor tomate suave) com muito creme de pimenta defumada, finalizado com um ovo cru misturado com o resto. Para dar substância, sabe? O prato é feito automaticamente por mim. Sem muito orgulho, assumo a certeza de ser a maior compradora de macarrão instantâneo sabor tomate suave desta parte da cidade: a quantidade varia entre oito a quinze unidades para consumo semanal. Embora eu desvie o olhar na hora de pagar pelo vício, os atendentes do mercadinho já me conhecem. Eu sei que sim.

É provável que atualmente eu seja também a maior compradora de energéticos fora de festas ou raves desta região da cidade. Nem sei se as pessoas ainda falam rave, mas acredito que o propósito da bebida continue parecido com este.Por experiência sei dizer quais delas são mais laxativas, quais são os sabores menos deprimentes e os mais efetivos.

Meus amigos estão preocupados com essa combinação, então venho parando aos poucos de mencionar minha rotina nutricional. “Mas é só até você terminar o seu TCC, não é?”, me pergunta um deles, meio temeroso. Brinco que estou cuidando do meu corpo como se ele fosse um templo… Em ruínas. Rimos de nervoso. Talvez essa seja a mais nova forma de auto-sabotagemTM maquinada pelo meu subconsciente.

Costumo evitar pensar em todas as vezes que me sabotei. Sou insone desde os doze anos, não é preciso de muita coisa para que eu passe a noite acordada, revirando na cama. Com a defesa da monografia cada vez mais próxima, as noites em claro se tornaram cada vez mais recorrentes. Comento “por cima” sobre a minha insônia com meus tios durante uma viagem de carro para Chapada. Eles dizem que eu preciso relaxar, e eles não estão errados.

Mas verdade é que eu não consigo relaxar, pelo menos não durante os últimos nove meses. Não relaxo desde o final de junho do ano passado por causa d’Ela. Meu intuito no início deste texto não era falar sobre Ela. Eu não falo sobre Ela. Não escrevo sobre Ela. Não escrevi sobre Ela no dia se sua morte, nem durante o sétimo dia de seu falecimento. Não escrevi sobre Ela quando se completou um mês de sua morte. Engoli o choro durante o primeiro Natal sem Ela. Justo Ela, que me ensinou através do exemplo que ser uma boa pessoa não significava ser cristã. E Ela definitivamente não era, apesar de seu passado católico, mas era sem dúvida a minha pessoa favorita no mundo todo.

Então, este texto, que tratava dos meus péssimos hábitos alimentares, chega até aqui pela minha crença de que a tristeza e o luto se fazem presentes das formas mais estranhas e misteriosas.

Minha mãe, Ela, faleceu sem se despedir. O ataque fulminante veio enquanto eu tomava banho. O som do chuveiro abafava o barulho de fora, mas eu ouvi mamãe gritar. A princípio, achei que ela estava ralhando com meu padrasto. Era costume os dois discutirem sobre assuntos mundanos, ambos muito questionadores. Segundo astrólogos, essa rotina se dava pela natureza ariana dos dois. E lá em casa a gente falava com frequência e também berrava bastante. Mas… Aquela vez em particular, mamãe não parava de falar.

Fechei a torneira e no mesmo instante soube que minha mãe gritava de dor. Eu nunca tinha escutado mamãe berrar de dor, não daquele jeito. Saí correndo do banheiro, a toalha enrolada no meu dorso, os pés escorregando pela casa a procura d’Ela. Cheguei ao portão e meu padrasto já saia com o carro, minha mãe estava no banco de trás, mas eu não conseguia vê-la. Meu irmão mais novo estava parado no meio da sala de estar, aturdido.

Já na minha memória seguinte, estou no meu quarto. Tanto eu quanto mamãe somos parte da Seicho-No-Ie, e naturalmente, li uma sutra, a oferecendo para a melhora d’Ela. Para minha surpresa e desconforto, durante aquela meia hora de leitura, eu só conseguia pensar “nossa, mamãe realmente viveu uma boa vida”, e “ela fez tudo que sonhava fazer e viveu com a liberdade que ansiava tanto”.

Minha mãe foi a única a acreditar na minha vida após uma tentativa de suicídio, o que tornava ainda mais ingrato o fato de eu não acreditar na vida dela. Me condenei. Mamãe não estava morta e aquela era certamente uma atitude não-filial de minha parte. No dia seguinte, bem cedo, avisei os amigos mais próximos que minha mãe estava hospitalizada, pedi orações e boas vibrações. Meia hora depois bateram na porta do meu quarto. Abri e dei de cara com meus tios e meu padrasto. Eles avisaram que “o ataque foi demais para sua mãe” e eu não entendi.

– Ah, mas ela ainda tá viva, não tá?

Questionei temendo a resposta.

Uma semana depois escrevi um pequeno texto para ser lido em sua missa do sétimo dia, justo d’Ela, que não era cristã. No final, não precisei ler. A missa era muito curta e várias pessoas haviam falecido, o padre não teria tempo para que parentes de todos falassem, e se não pudesse ser todos, que não fosse nenhum. Suspirei aliviada. Realmente não estava pronta para falar sobre Ela, especialmente em um lugar tão público. Justo eu, que assim como Ela, nem sou cristã.

Desde então evito falar sobre Ela, com medo de minha própria reação. Depois do falecimento d’Ela, fui morar com meus tios, irmãos de mamãe. A família se separou aos poucos. Meu irmão do meio foi morar sozinho. Meu irmão mais novo, que é meu xodó, ganhou uma bolsa de estudos em Foz do Iguaçu, e está morando lá desde o início do ano. Meu pai se faz presente como pode e a gente se esforça para se ver com regularidade. Whatsapp é um must para famílias espalhadas.

Eles me observam, mas não falam muito. Eu os observo e também fico calada. Nossa família é bem pequena, não tanto por opção. Aparentemente, as pessoas do nosso ramo familiar morrem bem cedo e meus tios já tiveram suas porções de luto ao longo da vida, cada um com sua própria história. Eles já adultam há muito mais tempo que eu, uma adulta em treinamento. Eles me observam, me apóiam e só opinam quando peço.

Este não é o meu primeiro luto. Quatro anos antes de mamãe falecer, foi vovó, que eu também amava muito. Mês passado, minha gata Jorja também morreu. Houve uma época que nós tínhamos muitos gatos, e Jorja era sem dúvida a preferida d’Ela. Jorja também era meu último vínculo com minha vida A.c.M. (Ainda com Mamãe).

Eu já passei por tudo isso antes, eu sei que daqui dois anos eu estarei bem. Enquanto esse momento não chega, vou vivendo como posso. Destruindo meu corpo das maneiras menos nocivas que encontro. Acabei de virar um energético Monster, do verde, e já sinto meu estômago revirar. A água para o miojo está esquentando no fogão.

 

 

 

*Ilustração de ssnchan

Kubrick, inclusão e ocupação: Cine Teatro Cuiabá promove mostra a preços simbólicos

 

Em uma mistura de inclusão, e ocupação de espaço, o Cine Teatro Cuiabá exibe a partir desta terça-feira (21), obras de diretores famosos que marcaram gerações. Com preços quase simbólicos, a Sessão Encontros com Cinema devolve ao edifício sua relevância no cenário cultural cuiabano e proporciona, até o dia 9 de maio, um encontro com o diretor Stanley Kubrick, escolhido para nomear a mostra. Laranja Mecânica (1971), O Iluminado (1980) e Lolita (1962) serão algumas dos clássicos rodados.

Nesse embalo, acontece o segundo encontro do curso de extensão “Experimentos Cênicos a partir da distopia em Kubrick”, oferecido pela MT Escola de Teatro, para 25 alunos selecionados. As aulas tiveram início no dia 14 de março e seguem até 02 de maio, às terças, das 19h às 22h.

Os ingressos para assistir aos filmes custam R$4 (inteira) e R$2 (meia), e estão à venda, além da bilheteria, também pelo site Ingressos MT. As exibições são sempre às 19h. A mostra é um projeto em parceria com a Pró-reitoria de Cultura, Extensão & Vivência (PROCEV), Cineclube Coxiponês e Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e tem como objetivo formar plateias que se interessem em ver ou rever obras cinematográficas de cineastas prestigiados nessa área.

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E para o público infantil tem ainda o projeto A Escola vai ao Teatro, que consiste em visitas agendadas, onde alunos e professores de escolas públicas privadas conhecem o Cine Teatro e assistem a um filme. Nesta semana, a atração é Alice Através do Espelho, que é uma continuação de Alice no País das Maravilhas. Desta vez, após uma longa viagem pelo mundo, ela volta para a casa da mãe e através de um espelho mágico retorna ao País das Maravilhas, vivendo incríveis aventuras. O projeto acontece todas as terças-feiras às 15h.

Para esta semana entra em cena Lolita, que conta a história de um professor de meia-idade que se apaixona por uma adolescente de 12 anos. Apesar de não suportar a mãe da jovem, se casa com ela, apenas para ficar mais próximo do objeto de sua obsessão, pois a atração que ele sente pela enteada é algo devastador.

A jovem, por sua vez, mostra ser bastante madura para a sua idade. Enquanto ela está em um acampamento de férias, sua mãe morre atropelada. Sem empecilhos, seu padrasto viaja com sua enteada e diz a todos que é sua filha, mas na privacidade ela se comporta como amante. Porém, ela tem outros planos, que irão gerar trágicos fatos.

O Cine Teatro

Inaugurado em 23 de maio de 1942, o prédio possui 1.182m2 de área construída, incluindo teatro com plateia para uma capacidade de 515 pessoas. Foi construído em área central da cidade, na Avenida Getúlio Vargas, ao lado do antigo Grande Hotel, oportunizou grandes espetáculos cinematográficos e cênicos até fins da década de 60.

Cineteatro
Reprodução/Internet

Em outras décadas, foi sede do Banco Bemat, cedido para a Fundação Cultural de Mato Grosso e sofreu interferências na estrutura do prédio ao longo dos anos. Passou por reforma, restauro e revitalização, reabrindo as portas em 2009. Funcionou até setembro de 2014 sob regime de contrato de gestão.
Atualmente a política de gestão do Cine Teatro Cuiabá passa por reformulação. Um novo chamamento está aberto com o objetivo é transformar o espaço num centro cultural artístico-pedagógico de referência, adotando um modelo de Teatro-Escola que combinará difusão e formação profissional.

Confira a programação que ainda entrará em cena da Mostra Kubrick:

Terça 21/03: Lolita (1962)

Terça 28/03: Dr. Fantástico (1964)

Terça 04/04: Laranja Mecânica (1971)

Terça 11/04: Barry Lyndon (1975)

Terça 18/04: O iluminado (1980)

Terça 25/04: Nascido para matar (1987)

Terça 02/05: De olhos bem fechados (1999)

Terça 09/05:  Documentário: Imagens de uma Vida (2001) – Direção: Jan Harlan

Entrada: R$4 (inteira) / R$2 (meia)

Horário: 19h

 

Ser mulher no Brasil infelizmente não é tão bom

Por Juliana Fernandez

O Brasil é o pior país da América do Sul para meninas; ele também é um dos piores do mundo para garotas, ficando atrás de países como Iraque, Ghana e Índia. Segundo o estudo Every Last Girl da ONG internacional Save The Children, o Brasil ocupa a 102ª posição no Índice de Oportunidades para Garotas, publicada ano passado. A lista é composta por 144 países. Para a criação do Índice foram considerados dados sobre gravidez na adolescência, mortalidade materna, casamento infantil, representação das mulheres na política e conclusão do ensino médio.

Na lista, o Brasil se destaca por ser um “país de renda média superior, que está ligeiramente acima no índice que o pobre e frágil Estado do Haiti”, que ocupa a 105ª posição. Para a defensora pública e presidente do Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Rosana Leite, a realidade brasileira é machista, na qual a representatividade feminina é tímida.

“O homem não entende de leis que a mulher precisa, o que ajuda na hierarquização do homem sobre a mulher. As leis que protegem mulheres são muito novas, a própria lei Maria da Penha tem apenas 10 anos. Entretanto, hoje as mulheres são mais abertas ao amparo dessas leis, que são afirmativas. É um trabalho de formiguinha, mas já no ano passado houve a Primavera das Mulheres, na qual mulheres relataram os abusos e situações que passaram em suas vidas. Sou muito esperançosa sobre o futuro, especialmente no que se refere ao futuro das meninas”, comenta a defensora pública.

Em todo Brasil, vivemos rotinas e dinâmicas machistas que transformam e destroem vidas femininas desde o nascimento de uma mulher. A jovem M. R., 20 anos, sofreu uma série de abusos sexuais pelo então namorado de sua mãe aos 6 anos de idade. Segundo o relato da jovem, sua família não tinha consciência a violência pela qual a filha passava.

“Minha mãe nunca gostou que eu ficasse perto de nenhum homem, justamente por eu ser uma menina. Eu era uma criança e não entendia o porquê disso, então teimava. Quando fiz 6 anos, começaram os abusos. Ele me fazia acariciar o órgão genital dele. Por um tempo, não vi maldade nisso, para mim, era apenas um carinho em alguém que eu gostava. Mas ele começou a me dar presentes, então minha mãe desconfiou e teve uma conversa comigo sobre assédio e pedofilia, questionando ao final se eu estava passando por isso, mas eu neguei porque estava envergonhada. Logo depois minha mãe terminou seu relacionamento com ele”, lembra a jovem.

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Ilustração de Daniel Simmonds

Após o abuso, M.R. se tornou uma menina que não gostava de ser tocada pelas pessoas. Durante a adolescência, não tinha relações duradouras. Segundo ela, era porque criava repulsa tanto dela quanto do companheiro.

“Já perdi as contas de quantas vezes passei mal na rua porque homens chegaram perto de mim, ou porque eles andavam no mesmo sentido que eu. Hoje eu namoro um menino iluminado, que por ser meu amigo de longa data, atravessa esse inferno comigo todos os dias e aguenta os meus ataques de pânico. Contei sobre o abuso para a minha mãe quando fiz 19 anos. Eu tenho ciência de que preciso de ajuda, porque não é fácil lidar com isso. Mas só de pensar em falar nisso, já dói, já me deixa desconfortável. É uma coisa que, se eu pudesse, apagaria da minha história”, desabafa M.R.

Segundo a integrante do coletivo Frente Feminista da UFMT, Lígia da Silva, os dados do Índice de Oportunidades para Garotas trazem tensão, já que mostram que o Brasil ainda necessita progredir para se tornar um país no qual meninas tenham a oportunidade de atingir seu potencial máximo em toda e qualquer área de suas vidas.

“Enquanto mulher, mãe, trabalhadora e feminista, vejo que ainda temos que enfrentar uma luta muito grande para que as futuras gerações de meninas possam tomar um fôlego, sabe? Eu vejo muitas meninas falando sobre feminismo nas escolas, mas ainda não conseguimos atingir muitas mulheres. Muitas mulheres ainda são invisíveis socialmente pelo recorte de classes que nós temos. Atualmente, o número de analfabetismo em Mato Grosso é maior entre as mulheres do que entre homens. Os dados que recebemos são alarmantes; a média de feminicídios em Mato Grosso é maior que a médica nacional. Nós não temos um governo ou uma segurança que se preocupe com os casos de violência contra as mulheres”, conta Lígia.

De acordo com os dados, um dos principais problemas enfrentados pelo país é a falta de representação parlamentar. A lista “Mulheres em Parlamentos Nacionais” criada pela União Interparlamentar coloca o Brasil na 155ª posição entre países com representação feminina na política; entre os 513 deputados federais eleitos em 2014, apenas 51 são mulheres. Para a cientista política Christiany Fonseca, o Brasil é um país que foi formado dentro de uma perspectiva patriarcalista, onde a figura masculina ainda está muito presente nos espaços, e isso afeta efetivamente na condição e condução de como as mulheres pautam seu cotidiano e a sua entrada no aporte político.

“Grande parte dos partidos no Brasil são comandados por homens. Ao longo dos anos, criamos formas de ampliação legal da inclusão da mulher, efetivamente, essas condições dentro dos partidos são desiguais. Não se dá condições para que as mulheres possam disputar lugares de poder em pé de igualdade com os homens. As mulheres vêm tentando lutar por uma inclusão, desde quando não tinham direito ao voto. A primeira deputada federal brasileira foi eleita em 1934, nós temos a primeira senadora eleita em 1990. A inclusão da mulher no cenário político é muito recente, e quando ela se insere ainda sofre muitas limitações”, finaliza Christiany.

 

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Autoria da ilustração sobre o texto: Daniel Simmonds.

“QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba

Por Felipe de Albuquerque

Não dá pra saber ao certo quando começa. Princípio e meio se imiscuem, não palpáveis, inidentificáveis. O fim é mistério. A autopercepção de que algo está acontecendo pode vir depois de uma noite mal dormida e que paira sobre os nossos corpos como uma nuvem cinza ao longo do dia. Ou ainda pode ser que venha como um vento forte que atravessou a vida no meio da tarde insossa de um domingo. Talvez chova em algum momento.

Comigo foi mais ou menos um pouco das duas situações. Adormeci depois de uma sesta despretensiosa e quando acordei já senti a mente cheia de uma primavera monocromática. Doía a cabeça, mas a alma também. Segui os dias, mesmo indisposto, equilibrando o destempero com as obrigações da vida. Aos poucos, foi se evidenciando um desdobramento que não se encaixava muito bem na forma original. Se eu pudesse, talvez tivesse me isolado dos outros e de mim para refletir sobre este fenômeno, como quando tentei (e falhei), correr para o banheiro do trabalho para ficar em silêncio por uns instantes, encostar a cabeça na parede de azulejo gelado e não pensar em nada. Até as luzes automáticas se apagarem e eu precisar me movimentar novamente para sair de lá. Continuar lendo ““QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba”

Vaginismo – o corpo da mulher ainda é um tabu

Por Juliana Fernandez

Muitas vezes causado por medo e estresse excessivo, o desconforto durante a relação sexual afeta de 3% a 5% das mulheres no mundo todo. Chamado vaginismo, essa disfunção sexual é rara e pouco conhecido entre mulheres. Descrito como uma síndrome psicofisiológica, o vaginismo é caracterizado pela contração involuntária dos músculos ao redor do orifício vaginal, causando dor e até a impossibilidade de manter relação sexual. Sem causa física, o distúrbio geralmente surge em mulheres que sofreram traumas e abusos sexuais.

Uma das poucas profissionais com conhecimento da área, a fisioterapeuta pélvica Maria Aparecida Araújo Macedo conta que a disfunção afeta drasticamente a autoestima das mulheres já na adolescência.

“Geralmente mulheres vaginicas sofrem com depressão, tem uma grande dificuldade relacionamento interpessoais. A doença pode levar a casamentos não consumados e acarreta  distúrbios emocionais. Mulheres que tem vaginismo fica com autoestima baixa por não conseguir  levar uma vida sexual saudável. Por isso, é recomendado que se trate a disfunção em seu inicio, normalmente durante a juventude da mulher”, explica.

Ela também conta que apesar de sempre ocorrer nos músculos perineais e elbadores, a disfunção se divide em dois tipos: primária e secundária.

“Apesar de ambos causarem a contração dos músculos do assoalho pélvico e adutores da coxa, o vaginismo primário é quando a mulher é incapaz de manter relações sexuais devido às contrações involuntárias da parede da vagina. Já o vaginismo secundário ocorre quando a mulher teve relações sexuais, porém com dificuldade em ter a penetração e dores após a relação, que também chamamos de despareunia”, diz a fisioterapeuta.

A antropóloga Poliana Queiroz, 29 anos, conta que sentiu os sintomas do vaginismo durante sua primeira relação sexual aos 18 anos.

“No inicio, achei que era por ser a primeira relação. Com as outras relações sexuais eu também sentia muita dor. Eu continuava estudando, me tocando, pesquisando… Mas eu ainda sentia muita dor. Até ter um momento que eu não conseguia mais ter penetração alguma. Era muito dolorido, mas eu tinha desejo. Eu procurava ginecologistas e elas sempre falavam que eu precisava relaxar”, lembra.

Segundo Poliana, a falta de informação disponível sobre vaginismo dificultou tanto o diagnostico médico quanto seu autodiagnostico, que ocorreu após longas buscas em sites e redes sociais.

“Li muito até encontrar o termo ‘vaginismo’. E a explicação de uma fisioterapeuta era de que por medo e pressões, por a mulher não ser aberta a conversar sobre sexualidade, ela pode ter um retraimento involuntário na relação. Por mais que a mulher sinta desejo, ela se fecha naturalmente. Foi então que pensei ‘puts, eu tenho isso’. Pesquisando, encontrei uma fisioterapeuta aqui em Cuiabá. Ela explicou para mim o que eu tinha, e que o meu vaginismo nem era grave, em uma escala, o meu era mediano. Tanto é que o meu tratamento foi rapidíssimo”, comenta a jovem.

Poliana conta que, para sua surpresa, encontrou vários grupos de apoio em redes sociais. Neles, mulheres de diferentes idades trocam relatos e dicas sobre o processo de cura da disfunção.

“Através das redes sociais, encontrei grupos de meninas e entendi que essa é uma doença que atinge diversas mulheres e pouco se fala sobre o assunto. Por eu ser antropóloga e ter estudado gênero, e saber das pressões sociais que as mulheres sofrem, acho que este assunto precisa ser discutido mais abertamente. Assim, mais mulheres terão ciência da doença, já que muitas passam por isso sem saber que existe cura”, explica Poliana.

De acordo com Maria Aparecida, o primeiro passo do tratamento é a consulta com um ginecologista, que irá expor a situação e certificar se a mulher realmente possui vaginismo.

“Seguindo essa consulta e fechado o diagnostico, é aconselhável iniciar o tratamento com um fisioterapeuta especialista na área. Dependendo do caso, é recomendável tratamento psicológico conjunto com um profissional que atue na área da sexualidade. Muitas mulheres tem receio de procurar ajuda profissional, assim como temos profissionais não capacitados. O tratamento recomendado contém exercícios para o assoalho pélvico, terapia manual, eletroestimulação, massagem perineal, liberação de pontos de gatilho e uso de dilatadores vaginais”, expõe.

Para Poliana, é preciso que a classe médica se sensibilize com as doenças sexuais femininas, para que assim aja uma maior propagação de informação entre médicos e pacientes.

“Na verdade, o vaginismo não é considerado uma doença. Porque o prazer feminino, historicamente, é um pecado. E isso é internalizado pelas mulheres, que não se percebem como doentes porque não tem informação e não sabem que isso pode ser tratado. No meu caso, através dos grupos do Facebook eu conheci outras pessoas que passavam por situações similares à minha. Mas eu também acho que tem que ocorrer grupos de estudo, e principalmente, tem que ocorrer dialogo para que as mulheres possam se tratar e ser  felizes”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Ensaio sobre escoliose: breve reflexão de um jovem gay

Por Felipe de Albuquerque

Enquanto eu encarava a parede branca, a profissional investigava minhas costas nuas tentando desvendar a causa de um desconforto que, muito esporadicamente, vem me habitar na região das escápulas. Silenciosa, ela seguia observando minhas tangentes e digitando em seu computador o que eu supunha serem os indícios da trajetória irregular de algumas vértebras. Eu estava ali no consultório fisioterápico, com os pés descalços, na melhor versão de mim em minha boa postura. “Preciso que agache sem dobrar os joelhos, os braços repousando a frente do seu corpo”, ela disse, analisando-me desengonçado, agora de perfil. Eu estava arrasando com minha flexibilidade amadora, pensei, enquanto me concentrada em respirar para não desmoronar.

Quando me sentei em frente à mesa, após toda aquela avaliação, a fisioterapeuta só não disse que estava tudo bem. “Escoliose”, “encurtamento muscular”, “leve torção nos quadris” foram alguns dos diagnósticos que levo do consultório desde então. Após enumerar estas falhas posturais, que não poderia deixar de corrigir para evitar dores mais sérias posteriormente, ela me posicionou diante de um grande espelho enquanto, ponto a ponto, foi me encaixando como um quebra-cabeças numa posição tanto quanto distante da “melhor versão de mim em minha boa postura”.

Ali estava o que eu poderia/deveria ser. Com o dorso mais elevado, os ombros voltados para trás pressionando as omoplatas; o queixo para cima e as mãos repousando ao lado do corpo, a imagem virtual que se formou refletia um desconfortável alguém; no caso eu mesmo, forjando uma postura confiante. “Se te chamarem de convencido por causa da postura, você recebe como elogio, porque é assim que saberá que está bem”, incentivou ela. No decorrer dos dias, tento imaginar que há um prendedor de roupas gigante me segurando pelo dorso, evitando minha derrocada.

Começamos a primeira sessão de Reedução Postural Global (RPG). Sobre uma maca, ela me colocou numa posição que me lembrou yoga – só que menos hard – e lá fiquei estagnado, concentrado na minha própria respiração por uns 20 minutos. Encerrada a sessão, tornei a me sentar em frente à fisioterapeuta, do outro lado de sua mesa, enquanto ajeitava a roupa dentro da mochila e conversávamos sobre os aspectos que, para além da dura rotina dos dias, podem nos levar ao desenvolvimento de pequenas ou grandes lesões ao nosso corpo.

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Escondendo uns sentimentos lá no fundinho do peito || Xavier Lucchesi

Ela endossou meu comentário de que, por questões psicológicas e sociais, nossos corpos também são empurrados para dentro, com as forças que nos atingem de todas as direções e nos força a proteger o que mais temos de precioso e íntimo: nossos sentimentos, que se alojam e tentam se esconder nas cavidades mais profundas de nosso peito.

Confesso que, desde aquele dia, que foi a primeira vez em que visitei um consultório de fisioterapia em aproximados 25 anos, pego-me refletindo sobre como todos estes vetores sociais e psicológicos me atingiram ao longo de minha vida. Além da timidez, com a qual brigo até hoje, tenho diversas fragilidades que me inibem, até mesmo, a expressar minha visão sobre os dias, sobre as coisas; a gritar e a enfrentar pequenas agressões cotidianas; a me posicionar no mundo.

No todo, sei que as sociabilidades de crianças e adolescentes não são fáceis. Crescer nos rasga de dentro para fora e de fora para dentro e algumas destas experiências nos torna mais fortes e preparados para as dificuldades que nos aguardam a vida adulta. Mas quando um jovem menino é descoberto homossexual, como foi o meu caso, esta fase da vida tende a ser ainda mais dolorosa.

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É difícil encaixar-se dentro das estruturas || Xavier Lucchesi

Apesar de alegre e quase sempre confortável com todas as minhas mudanças físicas e psíquicas no decorrer deste período da vida, sempre foi sufocante lidar socialmente com a minha orientação afetiva/sexual. Recordo-me, por exemplo, que apesar de gostar de jogar futebol com os meninos, sempre era pisoteado em minhas falhas. Era preciso ser o melhor para compensar a minha falha em ser homossexual – e eu simplesmente não era –. Aos poucos, deixei para lá o esporte e hoje mantenho distância e muitas críticas a boa parte dos fanáticos pelo esporte.

Dentre inúmeras outras situações, lembro-me de fazer o possível para chegar o quanto antes à sala de aula para evitar ser notado pelos colegas e ouvir algumas palavras que me atingiam fisicamente. Durante as aulas, era impensável solicitar ao professor a saída ao banheiro, porque, novamente, eu teria de enfrentar algum constrangimento. Passar em frente aos colegas jamais. Dia após dia, torna-se cansativo passar por estas situações e eu preferia só evitar, poupar-me.

Hoje, leio a notícia infeliz de que um casal homoafetivo que mora no norte do Rio de Janeiro recebeu em sua casa uma carta com dizeres bíblicos, homofóbicos e racistas solicitando que se mudem por serem “abominações”. Como outrora, estas palavras vão se alojando nas costas, pesando nos ombros e tentando atingir bem lá no meio do peito. Sinto a dor destes irmãos, que devem ter vivido uma realidade muito próxima a minha e passaram por tamanha brutalidade.

Infelizmente, nem a sobrevivência a toda sorte de sofrimento de uma vida poderia preparar este jovem casal para enfrentar tamanho ódio pela sua própria existência. “Eu não tenho dormido. Não tenho comido. A minha vida está paralisada. Eu tenho medo de acontecer de novo. Eu tenho medo de sair na rua e acontecer alguma coisa. Tenho medo que a pessoa que fez isso consiga reverter essa história a favor dela e contra a gente. Só medo, medo e medo”, diz Maycon Aguiar, 23 anos. Como pode alguém sofrer ameaças por amar? Ainda por cima em nome de Deus, que em inúmeras passagens bíblicas pontua o respeito ao próximo?

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Quer dizer que as bonita tão falando mal de mim?! || Xavier Lucchesi

São situações como estas, amedrontadoras, que nos desestabilizam não apenas internamente, mas se manifestam, gradativamente, em nossa pele, nossas vértebras e estruturas, furtando-nos de uma vida mais salutar, transformando nossos corpos que, em vão, seguem tentando se proteger para evitar momentos ainda mais profundos de tristeza. Talvez este texto não dialogue com os milhares de jovens gays e lésbicas que passam e vão passar por inúmeras situações de constrangimento.

Estou na iminência de completar 25 anos – pisces rules – e ainda hoje ouço em todos os ambientes que frequento piadas sobre a sexualidade de outrem associado aos adjetivos “bichona”, “viado”, “sapatão”, “traveco”. Não sei por qual motivo, as pessoas que falam pejorativamente tais termos desconsideram a minha presença e identidade e o fato de que eu poderia me incomodar com isso. Na maior parte das vezes, tenho feito questão de me posicionar.

A diferença, queridos pares, é que a gente aprende a enfrentar estas inúmeras situações. Seja sutilmente, ignorando, ou seja se posicionando, falando, escrevendo, o enfrentamento é libertador. Aos poucos, com o tempo – confiem no tempo, por favor, acreditem em mim – encontramos meios de desviar ou não ser atingidos tão profundamente pelas palavras que se alojam em nosso corpo e nos inibem de viver. Se atingidos, conseguimos superar mais facilmente, com o apoio de familiares, amantes, amigos e profissionais da saúde. Conquistamos alguma liberdade e vamos encaixando a alma ao corpo e nos sentindo bem no quebra-cabeças que refletimos no espelho.

Hoje as costas já doem menos.

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Conheça o trabalho de Xavier Luchessi;

Sexo, Tinder e Rock ‘n’ roll

O amor contemporâneo é digital

Por Marcelo Dantas 

Entre um e outro gole de cerveja no Hookerz, na Filinto Müller, meu amigo Pedro, 23, fez uma revelação a nossa roda: “Perdi minha virgindade com um cara que conheci no Tinder”. O imediato silêncio da turma passou despercebido em meio ao rock que tocava no pub, mas uma pergunta curta e grossa logo retomou a conversa e rendeu boas risadas: “Doeu?”

Ninguém sabia que ele, universitário da Federal que se gabava por ficar com belas mulheres, era gay, e ninguém do grupo se lembrava de tê-lo visto no Tinder — app em que todos nós estávamos. “Passei pelo perfil de todos vocês”, disse ele, mordendo o mini-hambúrguer da casa e lançando mão de pergunta que seria a tônica da abafada noite de sexta-feira: “O que estão buscando lá?”

Para quem não está familiarizado, Tinder é um aplicativo de paquera para celulares que permite que as pessoas se conectem por meio de um simples deslize de dedo sobre a tela. Integrado ao Facebook, você começa a ver fotos de usuários nas proximidades, um por vez. Pode aprová-los, deslizando o dedo para a direita, ou descartá-los, deslizando-o para a esquerda. Sendo o interesse mútuo, o software notifica as duas pessoas, que podem conversar num bate-papo privado. O serviço chegou ao Brasil no final de 2013 e contava, já em 2014, com 10 milhões de usuários.

“Sexo”, respondeu Bianca, 34, analista de um tribunal na capital. “Busco sexo. Tinder é um cardápio, igual a este”, finalizou, apontando para o menu do bar. Túlio, 18, estudante de pré-vestibular, balançou a cabeça concordando: “É uma vitrine com vários produtos, que nem a da loja aqui ao lado”.

Pontos de vista expressivos, e que seriam debatidos pelo grupo.

“Tudo depende do uso que você faz dele”, observou Cláudio, 41, advogado. “Acho que os interesses são os mais diversos possíveis. Sexo, romance, amizade, curiosidade”, disse. “Particularmente, quero conhecer gente nova. Passo o dia inteiro no escritório, debruçado sobre processos, até mesmo aos finais de semana. É complicado interagir, e o Tinder ajuda”, admitiu, pedindo ao garçom nova rodada de bebida.

“Mas qual a qualidade dessas interações?”, interrompeu Denise, 27, médica residente. “São relações superficiais, baseadas numa foto e que podem acabar com um simples apertar de botão”, pontuou. Essas afirmações me fizeram lembrar de “Amor Líquido”, obra de Bauman indicada pelo professor Orione no meu 4º ano de Direito. O sociólogo polonês sustenta que, na “modernidade líquida”, nada é feito para durar, para ser “sólido” — especialmente nossas relações.

“O Tinder está é expandindo a forma como nos relacionamos, Denise”, discordou Cláudio. “Conheci pessoas que talvez jamais conheceria. Toda relação é superficial no início, sobretudo a virtual. Mas a química só acontece quando há, de fato, diálogo e contato pessoal”, afirmou. “O aplicativo está fazendo com que encontros virtuais se tornarem reais”.

O cofundador da plataforma, Justin Mateen, parece concordar. Em entrevista ao caderno Tec, da Folha de S. Paulo, em 2013, ele responde que o Tinder é “um reflexo honesto da interação humana”, acentuando que, “quando você conhece alguém em um café, a primeira coisa que nota sobre ela é sua aparência física. Na conversa, você busca semelhanças como amigos ou interesses mútuos”.

“Além disso, percebo que o aplicativo tem contribuído com a socialização dos gays em Cuiabá”, atestou Pedro. “Socialização, não apenas sexo. Muita gente ainda está trancada no armário, por conta do preconceito, e o Tinder permite fazer amizades sem se expor tanto. É um primeiro passo”.

“E você, Dantas, o que acha?”, me questionou Bianca. “Acho que este será o tema do próximo artigo”, respondi. “Apesar de popular, o Tinder é tabu. Tanto que tenho certeza que terei de mudar o nome de vocês ao reproduzir os diálogos, estou errado?”, perguntei. Não estava.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

Eternotemporário, o lambe-lambe é exposição artística e adorno urbano

Por Juliana Fernandez 

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Lambe-lambe de Hugo Alberto.

Coloridos ou em preto e branco, chamativos ou discretos. Desenhos grudados nas superfícies da cidade tornam o cinza de prédios e obras não finalizadas parte de uma arte maior. O cotidiano cuiabano se torna uma colagem visual, com diferentes mensagens e olhares. Comunicação e arte é colada na capital através  dos lambe-lambes, ou apenas lambes. Posters de diversos tamanhos que são usados há séculos na publicidade, desde o inicio do milênio eles aparecem pelas cidades brasileiras como formas de intervenções artísticas. De papel e cola, o lambe-lambe é temporário, mas eterno enquanto dura. Através dele, se manifesta críticas e ironias, até declarações de amor e o silêncio.

Foi nessa onda que surgiu o Clichês na Rua, formado por Talissa Briante, Luana Brandão e Thiago Barbosa. O contato com os lambes surgiu no Facebook, quando uma das integrantes viu uma postagem sobre o assunto e se encantou com a ideia. “Nós sempre gostamos de intervenções urbanas. De levar a arte para a rua e comunicar com as pessoas que estão nela. A Talissa teve a ideia de fazer as frases e colocar poemas e versículos pela cidade”, explica Luana, de 26 anos.

Apesar do inicio despretensioso, aos poucos o projeto ganhou forças e recebeu carinho de quem vê. “A gente fez o Instagram e a página do Clichê, e quando vimos, as pessoas tiravam fotos nas ruas dos clichês que a gente produziu e marcavam a gente nas fotos, o lambe tem um retorno muito forte”, comenta Luana. “Não tínhamos criado tanta expectativa. Foi muito bom sentir que as palavras de amor que levamos tiveram um impacto positivo”, completa Talissa.

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Lambe-lambe do Clichês na Rua.

Entre as respostas recebidas por eles, Luana guarda consigo uma em especial.”Na fanpage do Clichês uma mulher escreveu para a gente que ela estava no ponto de ônibus e viu um clichê nosso, nele estava escrito ‘Calma! Ainda há tempo’. Ela disse que estava super apressada, mas se sentiu mais tranquila quando leu o Clichê. O lambe falou com ela de alguma forma.”

Já Hugo Alberto, de 25 anos, utiliza o lambe-lambe como um meio de levar sua arte para a rua de uma forma diferente. O artista plástico cria em seu ateliê, e depois cola os lambes pela cidade. “Me identifiquei com o lambe porque me atrai esteticamente e é uma maneira rápida de intervenção. Geralmente, eu tiro um dia para produzir os lambes e no próximo já saio para colar”, expõe.

No inicio, Hugo produzia desenhos complexos, mas hoje prefere trabalhar com um único elemento que será distribuído por Cuiabá. “Eu fazia os lambes como se tivesse fazendo uma tela mesmo, com vários elementos e de tamanhos maiores. Hoje escolho um elemento que eu esteja trabalhando mais, como estudo de forma e cores, e faço repetições. Como se retirasse uma parte do cenário todo e o levasse para rua”, diz.

Mesmo com seu valor artístico, segundo a assessoria da Polícia Judiciária Civil, o lambe-lambe é arte que só pode ser colado em espaços públicos com autorização. Caso não possua autorização, ainda se enquadra em vandalismo. Ainda segundo a assessoria, não existe uma lei especifica sobre intervenções artísticas em Mato Grosso. Independente de regulamentações, é uma forma rápida e prática de passar uma mensagem, seja ela através de imagem ou palavra. A temporariedade de cada lambe, assim como sua transformação após colado através das forças naturais, é o que o torna único.

Ksuwt é um cuiabano de 20 anos que decidiu adotar o pseudônimo para compartilhar sua arte com a cidade. “Sinceramente, eu não ligo muito para ispão. Regulamentada ou não, a minha linha de movimento é independente e é de ocupação e resistência. Eu colo em um ponto que eu acho interessante, e se tirarem eu coloco de novo. Se tirarem de novo, eu já procuro um outro ponto”, expõe o artista, que observa um tratamento mais positivo do estado em relação à arte de rua nos últimos anos.

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Lambe-lambe de Ksuwt.

Conhecido por trabalhar com feições femininas e desenhos no estilo retrato, Ksuwt vê no lambe-lambe uma forma prática de compartilhar arte. “É importante que aconteçam essas intervenções, primeiramente para dar um charme para a cidade. Estamos cheios de obras paradas, abandonadas ou mal acabadas. Essa cor cinza de concreto predominando não é bonito, é feio.”

Assim como Ksuwt, Hugo acredita na capacidade do lambe-lambe de redefinir um determinado local, tornando a cidade mais agradável para o povo que transita sobre, sob, e dentro dela. “Prefiro colar em casas abandonadas, acho que resignifica o lugar. Quem é artista tem necessidade de se expressar, e qualquer forma de intervenção muda o cotidiano da cidade. A história que a cidade te conta vai tomando outros rumos”, diz.

“Intervenções também são importantes para mostrar a cena underground dos artistas da cidade. Nem sempre a arte vai estar dentro de museus e exposições, mas também em um muro bem alto, um poste, um viaduto. Tira a morbidez da rotina. É legal estar em um ônibus ou carro e ter algo interessante para olhar, algo que não é um outdoor”, finaliza Ksuwt.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Experiência cíclica padronizada: uma reflexão sobre o passar dos anos

Por Thiago Mattos

A coluna de hoje é um relato mais pessoal. Inspirado pelas festas de fim de ano, em que familiares ressaltam a importância da gratidão e da esperança no Natal e fazem diversas resoluções de ano novo para os próximos 365 dias, fiz muitas reflexões sobre o tempo e sobre como tratamos de organizá-lo em ciclos.

Isso mesmo, ciclos! Pessoalmente, tento ser a mesma pessoa os 365 dias do ano, mas não adianta, ninguém consegue. Nós acabamos de certo modo sendo afetados por essa padronização de sensações que cada mês parece emanar.

É verdade, o ano começa no carnaval

As pessoas extravasam, viajam, comem coisas diferentes, veem pessoas diferentes, fazem sexo, loucuras, brigam com amigos antigos e fazem novas amizades. Tudo isso numa intensidade insana que dura quatro dias.

Aí vem aquele período conhecido como quaresma, em que até você que não é cristão acaba sendo contagiado. Além das pessoas mais tradicionais, que praticam o jejum, quem nunca ouviu pelo menos uma dessas promessas:

‘não vou comer carne/não irei ao McDonalds/ não vou beber/não vou fumar/não vou mentir/não vou ver TV/não vou jogar videogame’.

É um período de renúncia e mortificação. Na prática, é a penitência pós-carnaval, momento de contrabalancear os excessos. Curiosamente, nenhuma data comemorativa ‘atrapalha’ esse período, que termina na semana santa.

Normalidade chata

A essa altura, estamos perto do mês de maio e o ano enfim chega a uma normalidade. Para sair um pouco da ‘chatice’, o calendário nos oferece doses homeopáticas de prazer: ‘dia das mães’, ‘dia do namorados’, ‘festa junina’, ‘dia dos pais’, ‘dia das crianças’. Datas cuidadosamente espalhadas entre maio e outubro.

O período de seis meses, que vai de maio a novembro, é o intervalo de 180 dias em que o ano de fato acontece. A maioria das pessoas está envolvida (seriamente) com seus trabalhos e a vida cai naquela rotina extenuante, uma maratona de resistência em busca de uma recompensa final.

Que recompensa? A Black Friday claro!

A data importada começou em 2010, apenas online, e cresce a cada ano no Brasil. Hoje já virou ‘black week’, ‘black november’, aquele toque de exagero comum a nós tupiniquins. Posterior a um período de seis meses de muita rotina para todos, o capitalismo viu uma janela de oportunidade para criar o carnaval do consumo.

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O tempero brasileiro na Black Friday (Créditos: Netshoes)

A Black Friday já funciona como o início do fim do ano no Brasil. Convenhamos, a data caiu como uma luva. Todo mundo fica feliz com as compras e aí chega dezembro, momento de agradecer a tudo e a todos por mais um ano que se vai, mais fácil ainda aproveitando as compras ‘70% off’. Quem sabe você já até conseguiu fazer as compras de natal ainda em novembro?

Hora de celebrar, o fim de ano é o ‘carnaval’ da família, onde todos os exageros, exceto o sexual, são novamente celebrados. A mesa farta, as viagens, as festas, a vitória da família contra mais um ano.

Vem a ressaca de início de ano. Em tese, voltamos a trabalhar em janeiro, mas todos estão em marcha lenta, os adultos pagam IPTU, IPVA e material escolar, enquanto os jovens vivenciam aquela volta às aulas fake, só pra dizerem que não ficaram de férias até o carnaval.

É aí começa tudo de novo. Segundo o IBGE, o brasileiro vive esse ciclo 75 vezes em média…