Perfilados, vol. 1 – Dona Dorce, a tia dos livros

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Fotografia por Isabela Meyer

Por Ana Flávia Corrêa

É com um maço de cigarros e, muito provavelmente, com uma garrafa de café extremamente amargo que dona Dorce – a tia do livros – atende, de manhã à noite, os leitores que visitam a Biblioteca Livre, no bairro São Mateus, em Várzea Grande.

A mulher, de 46 anos, há cerca de um concilia seus afazeres domésticos com o cotidiano das crianças, adolescentes e adultos que vão até a biblioteca à procura de um livro, conselho ou meio minuto de prosa.

Entre o asseio das roupas, o cuidado com seus seis gatos e com suas plantas, é certo que alguém baterá palmas em frente à geladeira colorida instalada em frente da casa de dona Dorce e ela sairá, aos gritos, para solucionar o “problema” dos pequenos -ou grandes – leitores.

Foi em novembro de 2015 que ela, seu marido Eder Junior e seu filho mais velho, Lázaro Thor, decidiram montar a biblioteca. Misturando um sonho antigo, a falta de dinheiro e o improviso, a geladeira que estava encostada se transformou em um acervo de livros de todos os gêneros.

O marido, pintor e faz-tudo, ficou responsável pelas engenhosidades, já o filho, estudante, se incumbiu da arrecadação dos livros e restou à dona Dorce a função de “bibliotecária”, da qual ela se adaptou rapidamente.

A tia dos livros, que estudou até a oitava série, cataloga as doações, faz o cadastro dos leitores, anota os empréstimos e dá dicas para os que vão até a “geladeiroteca” sem um pedido específico.

“Acho que você vai gostar de O vendedor de sustos”, diz ela a um menino, sentada na calçada enquanto folheia a obra do escritor João Anzanello Carrascoza.

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Fotografia por Isabela Meyer

Há um consenso entre as crianças. A maioria, segundo ela, voltam satisfeitas e em busca de  um “pitaco” novo.

Dona Dorce , no entanto, não se restringe aos conselhos literários. Ela, que sabe o nome de todos os leitores da biblioteca, arranja tempo para conversar com os jovens durante o empréstimo dos livros e para “assuntar” sobre os problemas cotidianos.

Os leitores, principalmente os mais jovens, adquiriram um vínculo materno com a tia dos livros, que chega a visita-los em casa caso constate que algo não está bem.

“Dia desses, no mercado, vi essas duas crianças pegando comida no lixo, aqui perto. Trouxe elas aqui pra casa. Elas estavam todas sujas, cheias de machucados e com fome”, disse ela, durante conversa.

“A mãe deles estava há dias sem aparecer em casa, aqui na Cohab, tinha deixado os dois com a irmã mais velha, que também estava com fome. Eu chamei o conselho tutelar e eles levaram elas. Hoje a mãe voltou, eles estão bem cuidados e vem sempre na biblioteca”, ela completa, orgulhosa.

Em casa, não falta tempo para o resto das atividades, o café sai de hora em hora e tudo está sempre aconchegante para receber os filhos legítimos e os adotados, que encontram morada na casa toda enfeitada e no riso alto de dona Dorce.

Em meio a tantos afazeres e com tempo para cuidar de tudo e de todos, a tia do livro, quando questionada sobre quem cuida dela, responde:

“Minha filha, quem cuida de mim é eu mesma, porque se não lascou o resto.”

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Conexão Cuiabá – São Paulo, Vol. 1

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Retrato de Thales Mendonça, arquivo pessoal.

Por Flor Costa

“Se eu não tivesse vindo eu não teria feito nada e esperar estar pronto é esperar o momento que nunca vai chegar”. Essas palavras são do primeiro entrevistado da nossa série sobre cuiabanos que estão seguindo seus sonhos e arriscando em São Paulo.

Thales Mendonça (25) está completando cinco anos na capital paulista e nos recebeu em seu apartamento, no centro da cidade, para contar um pouco de sua trajetória na selva de pedra.

Thales é bacharel em filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e saiu de Cuiabá em 2012 buscando maiores estímulos para suas capacidades artísticas. De lá para cá “aos trancos e barrancos” construiu uma carreira de cineasta, escritor, roteirista, além de sua pesquisa autodidata sobre estética cinematográfica e cultura japonesa.

Escreveu uma série de 10 contos, intitulada “Infornografia”, que conta a história de diversos personagens envolvidos em uma trama numa trama de assassinato e mistério em um universo futurista. Os contos foram lançados m plataforma digital, que podem ser baixados separadamente, ou em compilação (D3-VA), sem comprometer o entendimento da obra. Também realizou dois curtas metragens “S” e “Nada”.

Com a voz sempre calma e cadenciada, nos contou sua experiência, seus objetivos como artista., também falou sobre o mercado de trabalho em São Paulo e as dificuldades e facilidades de morar na maior capital da America Latina. O jovem incentiva a todos que tenham o mesmo sonho para não ter medo e arriscar. Não ficar esperando o momento certo, pois esse só chega quando você se propõe a agir.

Confira a entrevista completa com Thales Mendonça:

Quando e com qual objetivo você foi embora de Cuiabá?

Eu sai em agosto 2012, estava trabalhando com relações internacionais na UFMT coisa que eu não queria fazer. Na época audiovisual em Cuiabá não tinha nenhum tipo de incentivo. Ainda ia demorar muito para que a cidade tivesse uma vivencia de cinema e eu queria aprender sobre a estética asiática, cinema japonês, que é minha área, porém havia uma carência de professores para me ensinarem sobre esse tema. Pensando que São Paulo é a maior colônia japonesa fora do Japão supus que com certeza iria encontrar mais material sobre cinema japonês aqui.

A principio, eu sai de Cuiabá porque lá não tinha incentivo, vida cultural, ou os estímulos que eu precisava. Hoje vejo que já teve uma mudança na cena cuiabana.

Como foi a adaptação em São Paulo no que diz respeito ao mercado de trabalho?

Foi complicado. No primeiro mês eu não tinha emprego, morava de favor na casa de amigos. Me mantive fazendo uns “freelas” em festas de SP, organizei algumas festas. Depois de dois meses fui trabalhar em uma locadora de filmes especializada em cinema europeu e asiático. O publico alvo eram produtores de áudio visual e atores. Lá tive um acesso a cinema que eu nunca tive antes. Foi um intensivão de cinema. Trabalhei lá por um ano e adquiri contatos na área. Foi quando resolvi sair da locadora pra tentar a vida de editor “freelancer”, comecei com vídeos promocionais de festas e eventos sociais, depois vídeos empresariais e artísticos. Nisso quatro anos se passaram, aos trancos e barrancos eu consegui me sustentar com essa carreira. Aos poucos fui me estabilizando e comecei a ter tempo para me dedicar aos meus curtas, ao meu livro, enfim ao lado artístico que eu queria.

Tem como fazer uma comparação do mercado de trabalho de São Paulo como o de Cuiabá?

Impossível comparar, pois SP é a maior metrópole da America Latina, aqui o fluxo de mercado de trabalho é muito mais concorrido, mais dinâmico, mais competitivo e mais lucrativo que o de Cuiabá. Isso falando de audiovisual. Na área da produção audiovisual em Cuiabá tudo é mais difícil, tirando o fato que lá tem a vantagem dos editais serem menos concorridos. Em contra partida, aqui é mais fácil você montar uma equipe, de encontrar profissionais da área, oportunidades, editais que te incluem.

O mercado lá é reduzido e precário, mas acho que é uma questão de tempo, assim como veio muita gente para buscar isso como eu, tem muita gente voltando para lá para aplicar os ensinamentos que adquiriu aqui. Fazer funcionar lá e botar gás nesse mercado. Hoje em dia já vemos três curtas cuiabanos premiados mundialmente, concorrendo a festivais, e saídos diretamente de Cuiabá para o mundo. Tem uma mudança de mercado sim, mas ainda não se compara com SP.

Qual sua relação com Cuiabá hoje em dia?

Eu vou para Cuiabá com frequência.  Escrevo criticas e resenhas cinematográficas para um portal de cultura cuiabano. Faço muito networking com os profissionais de lá. Gosto de manter contato com as pessoas que estão se virando lá para descobrir como esta a cena e o avanço do mercado. Tenho interesse de produzir coisas em Cuiabá. Como qualquer pessoa que morou na cidade, criei um apreço por ela. Eu sai porque o mercado não  tinha oportunidade, mas uma vez que o mercado ofereça oportunidades, é totalmente  valido aproveita-las. Vou lá pelo menos seis vezes ao ano. Costumo ir nas estreias de curtas, exposições de arte que vem surgindo, justamente para incentivar essa cena e o mercado cuiabano que precisam de incentivo.

De onde surgiu a vontade de trabalhar com cinema?

Meu pai foi cineasta por mais de 30 anos e por isso tive essa influencia dentro de casa. Por muito tempo achei que esse era meu foco, que eu queria trabalhar, dirigindo ou atuando no audiovisual. Me formei em filosofia e vim pra SP nessa proposta de trabalhar em uma produtora com produção audiovisual. Com o tempo acabei enveredando muito mais para a escrita (roteiros, resenhas cinematográficas, reportagens cinematográfica, analises e reestruturação de roteiro para alguns trabalhos, roteiro de comercial, episódios de vlog). Percebi que meu foco de trabalho era a escrita, tanto que ano passado lancei meu livro, e para 2017 estou escrevendo o segundo. Focar minha carreira na parte escrita do audiovisual. Tenho interesse em fazer filme para sempre, mas fazer como um hobbie, uma maneira de me comunicar e não como um sustento.

Quem é sua referencia no âmbito da escrita e da estética audiovisual?

No trabalho áudio visual para fazer a resenha cinematográfica, o maior critico de cinema que existiu foi o André Bazin, ele foi um grande estudioso do fazer cinema. Sempre soube separar muito bem a opinião da informação, isso para mim é uma das lições que eu tirei para o meu trabalho. Quando você está explicando cinema é muito importante separar a sua opinião do verdadeiro conteúdo.

Quando se trata de uma estética, eu trabalho com a asiática. Minha linguagem de semiótica e estética é primordialmente asiática, diretores coreanos e japoneses. É claro que eu não sou bitolado, gosto de absorver do que o cinema tem a oferecer, mas minhas maiores referências são do cinema japonês e coreano, cineastas como Kim Ki Duk, Bong Jo-hoo, Wong Kar Wai, Kenji Mizoguchu, Mizoguchi, Takeshi Miike, Takeshi Kitano, Yasujiro Ozu e Kurosawa.

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Cena de Chungking Express, dirigido por Wong Kar Wai

O que te encanta no cinema asiático?

A linguagem, estética e semiótica. A maneira de contar histórias, de expressar elementos e informações através da cor, da fotografia, da imagem, do ritmo. O cinema de mercado brasileiro é muito focado no cinema americano. Grande parte do cinema ocidental tem esse processo como base justamente por ser a maior indústria. Eu sempre busquei outras maneiras de fazer cinema e acabei me encantando pela estética asiática. Não acho que seja melhor ou pior que a ocidental. Só acho que eu me identifico mais, é uma conexão maior.

Falando do projeto “Infornografia”, porque optar por disponibilizar os contos primeiro em plataforma digital?

Acompanhando a própria produção audiovisual, hoje em dia vivemos na época das informações em seriado. As pessoas não querem coisas muito longas, elas querem as informações em pequenas doses para inserir no cotidiano.

Ao mesmo tempo eu sou uma pessoa que consome muito livro. Tive que lidar com o problema de espaço, manutenção e custo. Vivemos em um país onde 70% das pessoas não leem. Você precisa pensar em 30 mil maneiras de transformar a leitura em algo atrativo.

Pensando em tudo isso e levando em conta o fato que as editoras cobram uma taxa para que os escritores publiquem os livros, eu por ser independente estava fugindo disso. Não queria nada que me trouxesse um custo muito grande que inviabilizasse o projeto. Um livro para quem é desconhecido é uma chance enorme de você não vender e ficar com 2 mil copias encaixotadas em casa.

A plataforma da “Amazon” já cobra automaticamente os direitos inclusos no valor que você cobra. Ela manda o dinheiro direto pra sua conta e não gasta papel, o que é ecologicamente positivo. Diminui o custo para o consumidor. Você consegue ler em qualquer veículo eletrônico. Hoje em dia, as pessoas estão muito conectadas aos aparelhos eletrônicos é difícil largarem deles para lerem um livro. Eu preciso transformar esse livro de todas as maneiras em algo que seja acessível e atraente.

Porque lançar “Infornografia” em contos individuais?

Você pode comprar um conto só e ficar feliz apenas com aquele conto ou você pode ler todos contos juntos e entender um quadro maior. O Infornografia surgiu como uma plataforma para que eu inventasse histórias. O compilado chama D3VA, mas esse é só o primeiro compilado de quantas histórias eu quiser fazer dentro desse universo. Uma vez criado o universo, tudo é possível. Então foi um livro pensado da maneira mais viável menos custosa mais acessível e mais atraente. Basicamente, essa é a historia do Infornografia.

Fale sobre o seu próximo livro.

Para o segundo é um processo completamente diferente. Se passa em São Paulo nos anos 70. Demanda mais pesquisa, é muito mais situado na realidade. Vai ser lançado de uma vez só, apostando na ideia de que eu posso fazer um livro pequeno, e uma vez conhecendo a minha obra, fique mais fácil para as pessoas aceitarem a ideia de comprar um livro único.

Mas todos os meus livros são inicialmente digitais. A ideia de criar versões físicas, o que esta sendo programado para o Infornografia, é justamente em pequena tiragem, somente para pessoas que tem o interesse. Uma versão trabalhada de luxo, com capa dura para justificar a impressão. Eu acho que imprimir o livro em grande escala, em qualidade mais ou menos para vender não é o meu foco. Meu foco é compartilhar informação, se a maneira mais viável é a digital, essa é a minha plataforma. Eu espero que todos os meus livros saiam primeiramente na internet.

Como artista o que você busca passar com a sua obra?

O elemento que está presente em tudo que eu faço é a valorização da informação sobre a opinião. Eu falei um pouco antes sobre saber separar o que é sua opinião da verdadeira informação, isso é uma coisa que eu tento expressar em todos os meus trabalhos. A importância da cultura, a importância da informação.

A minha postura quanto ao mundo é que a informação é muito mais valiosa que qualquer opinião. Para mim não existe nada mais enriquecedor na experiência de estar vivo do que estar sempre descobrindo novas informações. Não é a toa que a minha serie chama Infornografia. Porque eu realmente espero promover uma pornografia de informações. Mostrar como a gente pode melhorar a nossa vida na Terra sempre aprendendo um pouco mais.

Para finalizar, que dica você daria para os jovens cuiabanos que estão querendo se aventurar na cidade de São Paulo?

A minha dica para qualquer pessoa é VENHA! Ninguém nunca está pronto, não existe o momento certo, nem a hora perfeita, nem o momento que você vai estar pronto. Esse momento nunca chega. Você só esta pronto quando você faz! Eu vim para cá com quase nenhum dinheiro no bolso, não tinha emprego e não sabia onde eu ia morar. Esse ano completo cinco anos que eu estou aqui. A certeza que eu tenho é que se eu não tivesse vindo eu não teria feito nada. Esperar estar pronto é esperar o momento que nunca vai chegar. Então eu indico isso para os cuiabanos que estão sofrendo com a ideia de querer tentar a vida em São Paulo, que é uma cidade grande assustadora e perigosa, no sentido de viciante em seu estilo de vida, que não tenham medo arriscar. Faz parte da vida e a gente não esta pronto até a gente tentar. Então VENHAM!