Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio

Por Felipe de Albuquerque

Gosto do silêncio que emana de todas as arestas do apartamento. Fechando os olhos, eu até consigo alcançar a alguns lances de escada e uma inclinação à direita e, após, à esquerda, a algazarra que fazem as crianças enquanto brincam de pique-esconde na área comum do prédio. Também é possível perceber que, mais a frente, um grupo de jovens universitários reunidos na churrasqueira tentam conversar mais alto que as músicas sertanejas que embalam o encontro; logo ao lado, no caminho que leva ao portão principal, um cachorro late para o outro enquanto seus tutores, sem graça pelo desconforto, cumprimentam-se. Aqui no silêncio eu visualizo cenas e ruídos de fora. Mas eles geralmente não me alcançam.

Na maior parte do pouco tempo em que passo no apartamento somos apenas eu e as arestas. E o som dos meus pés contra o piso áspero percorrendo a estreita cozinha para preparo de algum alimento à beira da pia e do fogão. Como quando ontem mesmo, perambulei como barata tonta para preparar uma comidinha teoricamente rápida. A cozinha me lembra que não me sentia tão desastrado assim desde a última vez, quando criança, joguei o apontador fora e fiquei com as raspinhas do lápis de cor nas mãos.

Pica e refoga alho e cebola. O atrito da faca contra a madeira e, depois, o próprio som dos alimentos que incendeiam o espaço com seus aromas de cocção. Vez ou outra, distraído com qualquer atividade, inclusive cozinhando, também tenho o hábito de emendar uma conversa comigo mesmo em voz alta ou balbuciar o refrão de alguma música. Assim, aos poucos e por uns breves instantes, rompo o silêncio do ambiente só para me provar que está tudo sob controle. E que tenho alguma ação sobre a quietude. Mas logo em seguida, ela avança novamente e me amansa. Continuar lendo “Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio”

Anúncios

Autoreverência através do Big Chop

Por Juliana Fernandez

Com o boom de alisamentos no fim da década de 90 e inicio dos anos 2000, meninas de cabelos crespos e cacheados aprenderam submeter seus cabelos à pesadas químicas desde cedo.  Influenciadas pela família, amigos e televisão, elas abriram mão dos cachos por cabelos mais lisos e, pelo menos em teoria, mais fáceis de cuidar. Essas garotas tentaram de tudo um pouco: de escova progressiva, definitiva e inteligente até relaxamentos. Com ou sem formol. Entretanto, a partir de 2010 essa geração de meninas, unidas através da internet, começou a se perguntar se o que procuravam era realmente um cabelo mais prático, ou se o que buscavam era uma maneira de serem incluídas na sociedade. Foi o inicio de uma geração de jovens – especialmente negras -, com tranças, turbantes e muito cabelo natural.

A busca pelo cabelo sem química não é fácil. Para conseguir os cachos de volta, elas passam pela transição capilar, que é um processo no qual os tratamentos de alisamento são abandonados para que o cabelo cresça sem química. O processo pode ser um baque à autoestima, já que a raiz do cabelo cresce com a textura natural enquanto o resto do cabelo continua liso. A transição capilar pode durar anos, dependendo do tamanho do cabelo de cada uma. A norma é o cabelo alisado, e muitas garotas começam a ter seus cabelos alisados por mães, tias e avós ainda na infância.

Estudante de arquitetura, Gizele Mesquita não lembra quando começou a relaxar o cabelo. A jovem de 24 anos teve seu cabelo relaxado por suas tias.

“Eu era muito pequena e morava com as minhas tias. Tem que ter paciência para lidar com o cabelo crespo. Como eu não sabia cuidar, e as minhas tias tinham outras coisas para fazer, elas acharam melhor que eu começasse a relaxar o cabelo para facilitar o penteado. Com o tempo, meu cabelo ficou sem forma. Eu usava Hair Life, que fedia muito. Era uma coisa bem complicada”, lembra.

asatt-05-lowres
Ilustração de Ojo Agi.

Ela decidiu trocar de química aos 15 anos e começou a usar Guanidina, que é na verdade uma mistura de carbonato de guanidina com hidróxido de cálcio. O produto queimou seu couro cabeludo e chegou a criar cascas em sua cabeça.  Com história semelhante, a publicitária Leilaine Rezende, começou a relaxar o cabelo com 13 anos.

“O meu cabelo sempre foi rebelde e volumoso. Ele era contido em um rabo de cavalo no topo da cabeça, com a frente bem lisa, rente ao couro cabeludo e sufocada por muito creme. Isso gerava uma caspa sem igual. Tinha vontade de tê-los soltos. Foi quando uma cabeleireira, amiga da família, sugeriu que eu fizesse um relaxamento leve”, conta Leilaine. Por causa da química, seu cabelo passou de loiro escuro para ruivo queimado, cor que segundo ela, lembrava água de salsicha.

A decisão de voltar ao cabelo natural não foi fácil para ambas. O processo de transição capilar de Gizele começou em 2014, quando foi selecionada para um intercambio em Portugal. Após chegar ao país de destino, notou que o produto utilizado para alisar os fios não era encontrado na região.

“Eu fui deixando, e as pessoas lá achavam bonito o cabelo cacheado. Eu achava muito feio do jeito que estava, com a raiz grande. Mas os meus amigos e conhecidos de lá elogiavam bastante. O meu cabelo era mais um na multidão, eles não estavam nem ligando se a raiz estava aparecendo ou não. Ao mesmo tempo, eu recebia mensagem por inbox de amigos e família aqui no Brasil que pediam para eu pentear ou alisar meu cabelo”, explica.

Quando voltou para Cuiabá, Gizele já havia decido parar de alisar o cabelo. Sua decisão chocou sua família e seus amigos. Ela conta que, além de receber criticas e olhares incomodados, precisou lidar com amigos que decidiram realizar uma intervenção para que alisasse o cabelo.

“Para os meus amigos, eu estava passando muita vergonha. Eles falaram que as pessoas estavam comentando sobre o meu cabelo. Meus amigos perguntaram se eu penteava meu cabelo e se eu tinha espelho em casa. Para eles, eu precisava ‘dar um jeito’, como se fosse fácil, como se só a fala deles pudesse tornar o meu cabelo super hidratado. E eu tenho que levar em consideração que faço arquitetura, que é um curso que preza pela aparência”, relembra a estudante.

asatt-03-04
Ilustração de Ojo Agi.

Após o episódio, Gizele realizou o Big Chop, ou BC (Grande Corte, em português). Maneira literal de cortar o mal pela raiz, no BC é removido todo comprimento do cabelo que tenha química. Algumas mulheres chegam a raspar os cabelos, outras cortam as pontas aos poucos até retirar toda a química do cabelo. Quando Leilaine fez o BC em novembro de 2012, as pessoas mais próximas se assustaram.

“Me chamavam de louca, inconsequente e de sapatão. Achavam que eu tinha perdido a vaidade e que isso me faria perder o namorado. Sofri muito. Chorava quando tinha que sair e não sabia que roupa me deixaria mais feminina e menos girafa”, revela.

Segundo Gizele, assumir os cachos a ajudou a se sentir mais empoderada, além de se assumir enquanto mulher negra.

“Antigamente, eu tentava embranquecer nessa cultura do branqueamento. Eu falava que meu cabelo era cacheado, mas não é. Ele é crespo. Leva um tempo para a gente aceitar e saber lidar com esse tipo de coisa. Porque ter cabelo crespo é assumir ser negro, e isso é complicado na sociedade que vivemos. Foi meio que paralelo o empoderamento em relação ao meu cabelo e a questão racial mesmo. Não tem como isso ser separado”, conta.

Para não desistir do processo de transição capilar, tanto Gizele quanto Leilaine contaram com o apoio de outras mulheres cacheadas e crespas através das redes sociais. “Elas foram essenciais no meu processo de aceitação, de afirmação de identidade e de contato com os cuidados ideais para o meu cabelo natural. Foi através do Instagram e do Facebook que eu aceitei que meu cabelo tinha a sua beleza, que existem técnicas mais naturais para realçar a textura e a saúde dos fios crespos. Vi quais eram as questões sociais e políticas que envolviam o preconceito sofrido e isso fortaleceu mais a minha decisão de assumir”, comenta Leilaine, que hoje administra o Ninho de Cacho, um perfil no Instagram sobre aceitação e enaltecimento do cabelo natural que conta com mais de 3 mil seguidores.

asatt-01-lowres
Ilustração de Ojo Agi.

O coro é reforçado por Gizele.“É como você estivesse no consultório de um psicólogo. As meninas dão apoio. Tem menina que posta foto e escreve que não está mais aguentando as criticas da família e dos amigos. Ai vem 70, 80 meninas mostrando fotos dos cabelos delas, falando para não desistir e mostrando o antes e o depois. Sempre tem depoimentos de pessoas que passaram pela transição, aconselhando as meninas a não desistirem.”

A publicitária Jessyca Silva, de 25 anos, está em processo de transição capilar há 15 meses. Para ela, não só as redes sociais se tornaram peça de apoio para quem deseja passar pelo processo, mas também os movimentos sociais.

“A internet me ajudou bastante em relação a como cuidar do cabelo, quais produtos usar e empoderamento. Ver outras mulheres que passaram por isso e hoje tem cabelos cacheados lindíssimos ajuda muito. Os movimentos sociais com mulheres também me ajudam bastante. A gente se sente melhor ao ver que existe tantas mulheres iguais a você, com os mesmos medos, dramas e cabelos. É muito bom quando a gente se liberta do que deveríamos ser, para finalmente ser apenas a gente”, finaliza.

O texto foi originalmente publicado no jornal A Gazeta.

Meu presente de natal: massagem tântrica

Por Raquel Mützenberg

tumblr_m9fap9hgsy1qz6f9yo1_500
Ilustração de Ashley Marnich

Nesta semana fui matar uma curiosidade que tinha há anos: terapia tântrica. Desde que iniciei a vida sexual, costumo ler sobre as diversas maneiras de praticar sexo, e o sexo tântrico sempre foi o que mais me intrigou.

Durante meu último relacionamento, convidei meu então parceiro a ir a uma sessão de meditação tântrica, porém sem sucesso. O terapeuta me explicou que é normal no casal um estar mais disposto que o outro. Mas eu não estava a fim de forçar a barra com uma coisa que considero tão íntima. Pois sexo, pra mim, tem a ver com autoconhecimento e liberdade de buscar o que te sacia e te faz entrar em contato com seu próprio prazer.

Depois de alguns meses curtindo a solteirice, cheguei a um dilema: me sinto uma mulher livre, mas quando vou me relacionar, me parece muito pesada a abordagem que muitos homens têm… eu não acredito que tenho que cumprir algum papel numa relação, mas quando menos espero, ali estou cumprindo também. E se tento desviar algum caminho, parece um perigo, uma afronta, uma falta de noção feminina por estar buscando meu próprio prazer. Me perguntava se era uma questão de falta de intimidade, ou eu é que não estava sabendo lidar.

Pois bem, fui a uma sessão de massagem tântrica. Falei sobre tudo isso ao terapeuta e ele me dissertou sobre as pressões sociais em cima dos homens. Eu só pensava comigo mesma: “e eu com isso?”. Quando me relaciono com mulheres me sinto mais livre para dizer do que gosto e nunca me ocorreu de uma mulher violentamente puxar minha cabeça em direção ao seu sexo e eu ouvir “chupa”. Por que diabos homens se sentem no direito de fazê-lo? Aliás, quando me fizeram, fui bem clara sobre o ponto final que estava acontecendo exatamente naquele momento com o meu tesão. Isso porquê sou uma pessoa de fetiches, mas como tudo numa relação, são coisas que devem ser conversadas antes.

Levei todas essas questões ao Thiago Gopi, terapeuta tântrico que atende no Centro 7 Chakras de terapia tântrica. Busquei um terapeuta homem justamente pelo fato de que sexo com mulheres para mim está muito bem resolvido. Antes de iniciar a prática da massagem, conversamos sobre muito do que precisa ser desconstruído no sexo ocidental, sobre a educação sexual que acontece atualmente basicamente por meio da pornografia – uma pornografia machista que preza pelo prazer masculino e a submissão feminina, sobre a falta de abertura que temos para conversar sobre o assunto. Thiago me explicou também sobre a questão das guerras e dos estupros, de que no Brasil temos uma herança da colonização na qual o estupro foi muito praticado para povoar o lugar com sangue europeu. Minha bisavó paterna, por exemplo, não a conheci, mas na família dizem que foi uma “índia pega no laço”. Ou seja, eu já fui pega no laço, mas porque eu pedi né (risos).

bondage
Fotos do projeto #mottabondage, do artista visual Fábio Motta

Depois de papear um tanto, subimos para a sala onde havia um tatame. Ali rolou uma playlist maravilhosa (arrasou, Thiago!). A prática consiste em muito toque, arrepios, sensibilidade à flor da pele, antes de chegar ao ponto ápice: a massagem genital. Regada a muito óleo de uva, o terapeuta massageia cada parte do corpo de maneira intensa e muita coisa foi novidade pra mim! Orgasmos múltiplos à parte, o último momento da sessão é nas nuvens, literalmente: num momento comigo mesma, aproveitei para meditar e sentir profundamente essa experiência. Dois dias depois da sessão ainda tenho um espasmo de liberdade na alma.

Quero experimentar ainda as meditações tântricas que o espaço oferece, se você também ficou curiosx, entre em contato com o Thiago Gopi aqui.

Fica de brinde o último clipe da Clarice Falcão, que tá de parabéns

 

https://vimeo.com/196530591

 

 

 

Sobre nostalgia, respeito, violência e educação

           

           Acordei cedo, como se não estivesse de férias, na manhã de uma quarta-feira chuvosa. Nas lembranças da noite anterior, sentia o peso de escrever algo, talvez o melhor texto de toda a minha vida, porque, simplesmente, parecia – parece – ser meu dever. Afinal, havia visitado a escola em que fui alfabetizado e participar de um projeto tão grande realizado dentro de seus muros e me comprometer a escrever sobre essa experiência, a mim, é uma espécie de obrigação qualitativa. Não bastasse essa responsabilidade, nem tudo estava acabado; eu deveria voltar, nesta mesma manhã de quarta chuvosa, ao lócus, colher ainda mais informações e, naturalmente, sentir dobrar o peso nos ombros. Essa minha situação me fez lembrar as angústias de um certo Guido, diretor de cinema italiano em Nine (2009). Ao final de deliberações com mesclas nostálgicas, ausência de cigarros e guiado pelo Felipe menino, eis meu enredo: Continuar lendo “Sobre nostalgia, respeito, violência e educação”

O retrato, por Gogol

Alguns artistas se veem, constantemente, diante de um impasse: o que fazer com sua arte: dedicar-se a esta por amor, e não comercializá-la, afinal, os apreciadores saberão o real valor delas; ou seguir uma vertente que não lhes agrada por dinheiro e assim se manter dela, ou ainda, tentar conciliar os dois sem deixar a essência sumir. Tal dilema foi relatado de uma forma tão consequentemente natural por Nikolai Gogol, em “O retrato”, que, por vezes, nem sequer parecia ser um conflito tão grande na cabeça do protagonista da primeira parte do conto.

Nikolai Gogol

A primeira parte do conto é sobre uma parte da vida de um jovem pintor, Tcharkhov, que, mal tendo o dinheiro para pagar seus aluguéis vencidos, consegue, de alguma forma, dispensar uma parte de seus últimos centavos na compra de um retrato que acredita ter pertencido a um exímio pintor. Continuar lendo “O retrato, por Gogol”

FUCK! I’m in my twenties.

 

Não lembro exatamente quando, mas ao abrir os olhos logo após o som irritante do alarme, acordei sem ter a mínima ideia do que queria fazer com minha vida. Meses depois, ao conversar com amigos, cheguei à conclusão que o problema crônico pelo qual passava é a nova coqueluche da nova geração: a crise existencial dos vinte e poucos.

Continuar lendo “FUCK! I’m in my twenties.”

Quem mexeu no meu guarda-roupas?

De todos os aspectos humanos, ou seja, dentre uma variada matiz de traços que dão ao ser o adjetivo de humano, o mais difícil e complexo diante de uma postura analítica, é o do comportamento. Primeiro, porque, como já vimos em post anterior, a nossa mente é social: são diversos fatores do meio que confluem para nos educar e, de acordo com os filtros que recebemos ao longo da vida de pessoas que tomamos como exemplo, vamos criando receptáculos e sintetizando, para nós, informações que influenciarão diretamente em nossas ações comportamentais. Segundo, porque com a mudança dos meios, das vivencias, dos receptáculos – que são naturalmente dinâmicos – nós também mudamos traços de nossa personalidade e do nosso comportamento. E é essa metamorfose tão premente, tão idiossincrática, que nos amplia o entendimento do que seria a igualmente polissêmica palavra viver.

Continuar lendo “Quem mexeu no meu guarda-roupas?”

O yaoi na música Ocidental

Segundo o respeitado, aclamado e muito consultado – qualquer informação/adjetivo que vá de encontro à estas qualidades é recalque da concorrência –  Wikipédia, o termo yaoi significa: um gênero de publicação que tem o foco em relações homossexuais entre dois homens e tem geralmente o público feminino como alvo. O termo se originou no Japão e inclui mangá, anime, novelas e dōjinshis. No Japão esse gênero é chamado de “Boy’s Love”, ou simplesmente “BL”, e “yaoi” é mais usado por fãs do ocidente. O yaoi se expandiu para além do Japão; materiais podem ser encontrados nos Estados Unidos, assim como em nações ocidentais e orientais ao redor do mundo.

Continuar lendo “O yaoi na música Ocidental”

A mente de um Surfista Solitário

 

a imagem de uma das praias mais gostosas que eu já conheci, Ponta Negra, em Natal.

Penso que o estado ideal do ser humano seja o seu mais íntimo, diligente e ferrenho individualismo. Há uma explicação bastante clara para essa minha tese: segundo Vygotski afirmou – e essa ideia ainda se perpetua sem grandes abalos científicos – a mente é social. Em outras palavras, todas as nossas vivências, sejam elas intelectuais ou empíricas formam o que nós somos hoje; e por essa formação receber influências constantes do meio – porque, teoricamente, estamos vivos e experienciando – somos pessoas diferentes a cada novo instante.

E quando eu digo estado ideal, refiro-me à utopia que sempre nos acomete quando passamos por algum momento não muito bom ou até mesmo ruim, de fato, em nossas vidas. A perda de um ente querido, o término de um relacionamento; os mendigos estendendo suas mãos sujas e ossudas me dá um trocado?; as guerras infindáveis no Oriente Médio e a iminência constante de atentados terroristas; um livro ou um filme dramático com o qual nos identificamos e nos condoemos por dias. Se o real desejo é que não nos sintamos comovidos por essa realidade diária, eu reafirmo: nosso estado ideal é o individualismo.

Talvez, daí, surja a fascinação do homem pelas máquinas: elas não sentem, elas não são movidas pela necessidade, nem se preocupam com as mazelas do mundo. A máquina é apenas a máquina; inteligente e individual a ponto de creditar, a si mesma, a panaceia de que ela precisa pra sobreviver. E se basta.

Supondo que, de fato, nosso estado ideal seja fundado no indivíduo e a nossa busca é para que não sintamos mais nada, fica fácil concluir que estamos deixando de ser humanos, para nos tornarmos seres autômatos. E será tão mais fácil (sobre)viver.

Mas, infeliz ou felizmente, por enquanto, ainda somos mais que nosso próprio umbigo – e, reiterando, nossa mente é social, não artificial -. Você provavelmente já leu algum O cortiço e, desde então, teve de se deparar com questões deterministas de como o meio nos influencia – e de como, as vezes, ele consegue se sobressair à nossa própria racionalidade.

No entanto, admito que meu motivo de escrever este post talvez seja menos nobre que citar uma teoria de Vygotski e demonstrar um pouco do que eu venho aprendendo nesses semestres iniciais de faculdade. Todo esse argumento (pseudo)elaborado para te convencer até agora é, na verdade, um raciocínio para eu me sentir menos frustrado em ter acordado muito bem (não só pela agradável noite de sono, mas pelo rápido cronograma mental que fiz ao pensar no meu dia de hoje – e nos vindouros); pela minha mente ser tão social e meu humor ser tão vulnerável às oscilações do meio.

Defendo-me: como não ficar feliz ao acordar ouvindo a voz dos pais reverberando pelas paredes da casa? É tão bom! – Já faz seis anos que eu moro na capital com minha irmã, eles estão aqui de passagem (em constante passagem, por sinal, rs) -; ou então receber logo cedo uma ligação bom dia ou um sms hey, sumido!; sentir-se lembrado nos dá uma sensação de magnitude e completude tão grandes que por mais que a rotina diga tic-tac-tic-tac-pouco-tempo-corra e esteja nos transformando em cronômetros, são essas pequenas coisas, detalhes, que ainda nos tornam seres humanos.

Hoje é aquele dia do mês, a última-quarta (que, na verdade, agora é toda quinta), que eu me desobriguei, assim deliberadamente democraticamente comigo mesmo, a falar de música e a falar mais sobre coisas aleatórias, crônicas, etc. Mas eu ouvi essa música do Gabriel o Pensador com participação do Jorge Ben Jor na rádio, assim que liguei na “tupi fm” (sdds, laila dominique) pra arrumar meu quarto. E é impressionante a capacidade de deslocar que essa onda da música traz. Não sei se é minha (muita) saudade da praia ou se é de total responsabilidade do “Surfista Solitário”, mas eu abri a janela pra esse sol escaldante e já estava pegando meu kit-farofa, sombreiro, tanga (canga?! – sempre confundo -) e cadeira reclinável pra me estirar na areia às margens do Rio Cuiabá.

 

 

Só posso desejar não ouvir mais essa música hoje, para a vontade instintiva não voltar. E claro, que esse tempo seco não influencie minha vida amorosa. Determinismo seletivo, por favor.

 

Bonitinha, mas ordinária

(cenário: o interior de um ônibus em movimento num dia de muito sol)

Senhora faladeira: cai não, menino!

(menino após tropicar na porta do ônibus se apoia no braço de um dos acentos)

Menino (sorrindo sem graça): pode deixar, senhora. Aqui nóis trupica, mas não cai!

(menino, agora devidamente digno, estende o braço entregando uma nota de R$10, 00 ao senhor motorista/cobrador)

Senhor motorista: não não, moço. Agora a gente não recebe mais não. Tem que comprar o cartão. Agora só com o cartão.

Menino (indignado): então pare pra que eu possa descer! Onde compro o cartão? Só no MTU?

Senhor motorista: não, pode ficar aí, moço. Nessas paradas de ônibus vende cartão com o pessoal da MTU. Eles tão por aí, fica tranquilo, pode ficar aí.

Senhora faladeira: vê com o Adalto. Adalto sempre tá alí berando a Getúlio Vargas. Fala com ele.

Menino (conformado): tudo bem.

Senhora faladeira: mas você não tem cartão? É estudante de mochila e tudo!

Menino: pois é, até tenho, mas a faculdade tá de greve.

Senhora faladeira: faz qual faculdade? UNIC?

Menino: não, UFMT.

Senhora faladeira (rindo de deboche): rum, diz que UFMT é pra rico e UNIC que é pra pobre; filhinho de papai paga um cursinho aí no Farina, paga dois mil reais por mês e passa.

Menino: é mesmo?

Senhora faladeira: é sim. Vai dizer que não é?

Menino (sem querer entrar em discussões): é… Mas agora tem as cotas aí, né. Isso vai mudar.

Senhora faladeira (brava): tomare que mude.

(Pausa. Silêncio. Buzina. Motor do ônibus acelerando).

Senhora faladeira: eu, por exemplo, agora vou fazer um cursinho aí pra ver se aprendo ingres. Falar com os gringo que vem pra copa.

Homem de camiseta azul (ao lado do menino – que se segura para não tecer comentários -): hummm, que isso hein?!

Senhora faladeira: não é porque tenho sessentão que não vou dar um jeito de falar com os gringos… quem sabe aí…

Homem de camiseta azul ao lado do menino (mudando o peso do corpo de perna, para se apoiar à arrancada do ônibus. Ainda rindo): sim, claro…

(ônibus para. Menino compra o cartão, não com Adalto, mas com outro cara que a Senhora faladeira cumprimenta como se fosse ele mesmo).

Senhora faladeira: tarde! dia quente, né moço?

(moço não ouve, pois as bundas de quem sobe no ônibus interceptam o diálogo. Ela não insiste)

(menino recebe o troco e segue a manada que está a passar pela catraca)

Menino: até mais, senhora!

Senhora faladeira (acenando com a mão direita): tchau.

Menino (balbucia, sentando-se num dos bancos mais ao fundo, surpreso com a senhora faladeira): que engraçada.

(aos fundos, a voz da senhora continua a reverberar, enquanto se dirigia ao seu novo interlocutor – homem de camiseta azul – disputando com o som roufenho do motor).

Menino (ainda surpreso, sorrindo): pobre homem de camiseta azul.

(e o ônibus vai embora)

Isso (cena supracitada), evidentemente, não aconteceu comigo quando eu voltava da autoescola na tarde de hoje, enquanto tomava um ônibus, totalmente distraído e aos trancos pela ansiedade e possibilidade de perdê-lo, ao mesmo tempo em que havia decidido e começado a maquinar sobre este post. A qualidade não chega aos pés de uma homenagem digna que “o tema” merece, mas relevem e se apeguem à intenção: foi transcrito com fidelidade, risos e esmero. rs.

Ouso dizer que sou corajoso para escrever qualquer coisa sobre ele; deveria me limitar à admiração, mas não me resigno. Vocês, meuzamigosleitor, me deixam a vontade; e, de repente, é como se eu estivesse conversando com a Giovanna. Então, vamos desvendar a identidade da nossa homenagem de hoje.

Há exatos 100 anos, nascia aquele que viria a se tornar um dos maiores nomes da história do nosso país. Nelson Rodrigues, dramaturgo considerado por muitos o pai do teatro brasileiro, despontou com sua Vestido de Noiva, em 1943 e, desde então, somou a sua vasta biografia, dezessete peças, nove romances, sete livros de contos e crônicas e milhares de artigos de jornais.

Suas palavras se juntavam no papel sempre coesas pela inspiração e admiração que possuía pela morte e adultério. Em verdade, Nelson retratava uma face do Brasil que, segundo o jornalista Augusto Nunes, ainda “tenta inutilmente esconder as taras, as vergonhas familiares, a guerra conjugal, o adultério, os preconceitos, a sexualidade reprimida, a mesquinhez patológica”, um país que reflete bem a dualidade maniqueísta – de tentar se esconder por detrás do pudor.

Mas não há fechadura que Nelson não tenha espiado – não, exceto essa que você certamente pensou, Big Brother -. Como ele se definiu: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)”.

E o menino Nelson continuará vivo nas mesas de botequim, palco em que, corriqueiramente, se reproduzem suas frases, bem como em suas peças que nunca saem de cena, estreladas por nomes como Marília Pera e Fernanda Montenegro. No dia 21 de dezembro de 1980 – quando veio a falecer – “o homem que passou a vida inteira pensando na morte, se foi. Nunca se saberá se já tinha descoberto que era imortal”. E, concordando com Augusto Nunes, se sentará com nossos filhos, e netos, e bisnetos num bar, rememorando e revivendo grandes momentos da humanidade e da sociedade de nosso país. Porque as personagens mudam, mas os tipos transcritos por Nelson serão tão eternos quanto ele mesmo.

Para fechar a breve homenagem, indico o mais recente videoclipe da Azealia Banks, cantora que já mencionei aqui outras vezes e que é a nova queridinha da música, da moda, do entretenimento. Assista, Van Vogue:

 

O videoclipe é bem simples, mas traz claras referência do detetive Dick Tracy (cujo filme têm como trilha sonora Vogue, da Madonna), mostrando, também, a face fashion-sexy da nova queridinha da moda, que em meio às águas, desfila a mais recente coleção de Alexander Wang.

 

Madonna e Warren Beatty (como Dick Tracy)

Azealia pode não ter nada a ver com todo o contexto, muito menos ter relação direta com nosso país – que foi a grande fonte de inspiração para Nelson -. Mas ela bem que, artisticamente, parece ser personagem retirada de uma das obras do dramaturgo; seja pela oralidade lacônica, seja pela reprodução com um inglês coloquial falado nas ruas de Nova York; seja pela vulgaridade dos palavrões sujos, tão polêmicos quanto Um beijo no asfalto; ou só pelo fato de ser uma mulher a falar de tudo isso (de pu$$y e a$$) quando lhe convier. A grande genialidade da figura Azealia, é que ela representa em si, a ambiguidade: elegante, marcas caras, bitch wering. Azealia é a típica bonitinha, mas ordinária; saudades de Geni.