Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio

Por Felipe de Albuquerque

Gosto do silêncio que emana de todas as arestas do apartamento. Fechando os olhos, eu até consigo alcançar a alguns lances de escada e uma inclinação à direita e, após, à esquerda, a algazarra que fazem as crianças enquanto brincam de pique-esconde na área comum do prédio. Também é possível perceber que, mais a frente, um grupo de jovens universitários reunidos na churrasqueira tentam conversar mais alto que as músicas sertanejas que embalam o encontro; logo ao lado, no caminho que leva ao portão principal, um cachorro late para o outro enquanto seus tutores, sem graça pelo desconforto, cumprimentam-se. Aqui no silêncio eu visualizo cenas e ruídos de fora. Mas eles geralmente não me alcançam.

Na maior parte do pouco tempo em que passo no apartamento somos apenas eu e as arestas. E o som dos meus pés contra o piso áspero percorrendo a estreita cozinha para preparo de algum alimento à beira da pia e do fogão. Como quando ontem mesmo, perambulei como barata tonta para preparar uma comidinha teoricamente rápida. A cozinha me lembra que não me sentia tão desastrado assim desde a última vez, quando criança, joguei o apontador fora e fiquei com as raspinhas do lápis de cor nas mãos.

Pica e refoga alho e cebola. O atrito da faca contra a madeira e, depois, o próprio som dos alimentos que incendeiam o espaço com seus aromas de cocção. Vez ou outra, distraído com qualquer atividade, inclusive cozinhando, também tenho o hábito de emendar uma conversa comigo mesmo em voz alta ou balbuciar o refrão de alguma música. Assim, aos poucos e por uns breves instantes, rompo o silêncio do ambiente só para me provar que está tudo sob controle. E que tenho alguma ação sobre a quietude. Mas logo em seguida, ela avança novamente e me amansa. Continuar lendo “Habitar-se: sobre mudança, auto-conhecimento e a nova convivência com o silêncio”

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“QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba

Por Felipe de Albuquerque

Não dá pra saber ao certo quando começa. Princípio e meio se imiscuem, não palpáveis, inidentificáveis. O fim é mistério. A autopercepção de que algo está acontecendo pode vir depois de uma noite mal dormida e que paira sobre os nossos corpos como uma nuvem cinza ao longo do dia. Ou ainda pode ser que venha como um vento forte que atravessou a vida no meio da tarde insossa de um domingo. Talvez chova em algum momento.

Comigo foi mais ou menos um pouco das duas situações. Adormeci depois de uma sesta despretensiosa e quando acordei já senti a mente cheia de uma primavera monocromática. Doía a cabeça, mas a alma também. Segui os dias, mesmo indisposto, equilibrando o destempero com as obrigações da vida. Aos poucos, foi se evidenciando um desdobramento que não se encaixava muito bem na forma original. Se eu pudesse, talvez tivesse me isolado dos outros e de mim para refletir sobre este fenômeno, como quando tentei (e falhei), correr para o banheiro do trabalho para ficar em silêncio por uns instantes, encostar a cabeça na parede de azulejo gelado e não pensar em nada. Até as luzes automáticas se apagarem e eu precisar me movimentar novamente para sair de lá. Continuar lendo ““QUE OBESA O QUE”: inferno astral e o desabafo de uma jabuticaba”

Ensaio sobre escoliose: breve reflexão de um jovem gay

Por Felipe de Albuquerque

Enquanto eu encarava a parede branca, a profissional investigava minhas costas nuas tentando desvendar a causa de um desconforto que, muito esporadicamente, vem me habitar na região das escápulas. Silenciosa, ela seguia observando minhas tangentes e digitando em seu computador o que eu supunha serem os indícios da trajetória irregular de algumas vértebras. Eu estava ali no consultório fisioterápico, com os pés descalços, na melhor versão de mim em minha boa postura. “Preciso que agache sem dobrar os joelhos, os braços repousando a frente do seu corpo”, ela disse, analisando-me desengonçado, agora de perfil. Eu estava arrasando com minha flexibilidade amadora, pensei, enquanto me concentrada em respirar para não desmoronar.

Quando me sentei em frente à mesa, após toda aquela avaliação, a fisioterapeuta só não disse que estava tudo bem. “Escoliose”, “encurtamento muscular”, “leve torção nos quadris” foram alguns dos diagnósticos que levo do consultório desde então. Após enumerar estas falhas posturais, que não poderia deixar de corrigir para evitar dores mais sérias posteriormente, ela me posicionou diante de um grande espelho enquanto, ponto a ponto, foi me encaixando como um quebra-cabeças numa posição tanto quanto distante da “melhor versão de mim em minha boa postura”.

Ali estava o que eu poderia/deveria ser. Com o dorso mais elevado, os ombros voltados para trás pressionando as omoplatas; o queixo para cima e as mãos repousando ao lado do corpo, a imagem virtual que se formou refletia um desconfortável alguém; no caso eu mesmo, forjando uma postura confiante. “Se te chamarem de convencido por causa da postura, você recebe como elogio, porque é assim que saberá que está bem”, incentivou ela. No decorrer dos dias, tento imaginar que há um prendedor de roupas gigante me segurando pelo dorso, evitando minha derrocada.

Começamos a primeira sessão de Reedução Postural Global (RPG). Sobre uma maca, ela me colocou numa posição que me lembrou yoga – só que menos hard – e lá fiquei estagnado, concentrado na minha própria respiração por uns 20 minutos. Encerrada a sessão, tornei a me sentar em frente à fisioterapeuta, do outro lado de sua mesa, enquanto ajeitava a roupa dentro da mochila e conversávamos sobre os aspectos que, para além da dura rotina dos dias, podem nos levar ao desenvolvimento de pequenas ou grandes lesões ao nosso corpo.

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Escondendo uns sentimentos lá no fundinho do peito || Xavier Lucchesi

Ela endossou meu comentário de que, por questões psicológicas e sociais, nossos corpos também são empurrados para dentro, com as forças que nos atingem de todas as direções e nos força a proteger o que mais temos de precioso e íntimo: nossos sentimentos, que se alojam e tentam se esconder nas cavidades mais profundas de nosso peito.

Confesso que, desde aquele dia, que foi a primeira vez em que visitei um consultório de fisioterapia em aproximados 25 anos, pego-me refletindo sobre como todos estes vetores sociais e psicológicos me atingiram ao longo de minha vida. Além da timidez, com a qual brigo até hoje, tenho diversas fragilidades que me inibem, até mesmo, a expressar minha visão sobre os dias, sobre as coisas; a gritar e a enfrentar pequenas agressões cotidianas; a me posicionar no mundo.

No todo, sei que as sociabilidades de crianças e adolescentes não são fáceis. Crescer nos rasga de dentro para fora e de fora para dentro e algumas destas experiências nos torna mais fortes e preparados para as dificuldades que nos aguardam a vida adulta. Mas quando um jovem menino é descoberto homossexual, como foi o meu caso, esta fase da vida tende a ser ainda mais dolorosa.

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É difícil encaixar-se dentro das estruturas || Xavier Lucchesi

Apesar de alegre e quase sempre confortável com todas as minhas mudanças físicas e psíquicas no decorrer deste período da vida, sempre foi sufocante lidar socialmente com a minha orientação afetiva/sexual. Recordo-me, por exemplo, que apesar de gostar de jogar futebol com os meninos, sempre era pisoteado em minhas falhas. Era preciso ser o melhor para compensar a minha falha em ser homossexual – e eu simplesmente não era –. Aos poucos, deixei para lá o esporte e hoje mantenho distância e muitas críticas a boa parte dos fanáticos pelo esporte.

Dentre inúmeras outras situações, lembro-me de fazer o possível para chegar o quanto antes à sala de aula para evitar ser notado pelos colegas e ouvir algumas palavras que me atingiam fisicamente. Durante as aulas, era impensável solicitar ao professor a saída ao banheiro, porque, novamente, eu teria de enfrentar algum constrangimento. Passar em frente aos colegas jamais. Dia após dia, torna-se cansativo passar por estas situações e eu preferia só evitar, poupar-me.

Hoje, leio a notícia infeliz de que um casal homoafetivo que mora no norte do Rio de Janeiro recebeu em sua casa uma carta com dizeres bíblicos, homofóbicos e racistas solicitando que se mudem por serem “abominações”. Como outrora, estas palavras vão se alojando nas costas, pesando nos ombros e tentando atingir bem lá no meio do peito. Sinto a dor destes irmãos, que devem ter vivido uma realidade muito próxima a minha e passaram por tamanha brutalidade.

Infelizmente, nem a sobrevivência a toda sorte de sofrimento de uma vida poderia preparar este jovem casal para enfrentar tamanho ódio pela sua própria existência. “Eu não tenho dormido. Não tenho comido. A minha vida está paralisada. Eu tenho medo de acontecer de novo. Eu tenho medo de sair na rua e acontecer alguma coisa. Tenho medo que a pessoa que fez isso consiga reverter essa história a favor dela e contra a gente. Só medo, medo e medo”, diz Maycon Aguiar, 23 anos. Como pode alguém sofrer ameaças por amar? Ainda por cima em nome de Deus, que em inúmeras passagens bíblicas pontua o respeito ao próximo?

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Quer dizer que as bonita tão falando mal de mim?! || Xavier Lucchesi

São situações como estas, amedrontadoras, que nos desestabilizam não apenas internamente, mas se manifestam, gradativamente, em nossa pele, nossas vértebras e estruturas, furtando-nos de uma vida mais salutar, transformando nossos corpos que, em vão, seguem tentando se proteger para evitar momentos ainda mais profundos de tristeza. Talvez este texto não dialogue com os milhares de jovens gays e lésbicas que passam e vão passar por inúmeras situações de constrangimento.

Estou na iminência de completar 25 anos – pisces rules – e ainda hoje ouço em todos os ambientes que frequento piadas sobre a sexualidade de outrem associado aos adjetivos “bichona”, “viado”, “sapatão”, “traveco”. Não sei por qual motivo, as pessoas que falam pejorativamente tais termos desconsideram a minha presença e identidade e o fato de que eu poderia me incomodar com isso. Na maior parte das vezes, tenho feito questão de me posicionar.

A diferença, queridos pares, é que a gente aprende a enfrentar estas inúmeras situações. Seja sutilmente, ignorando, ou seja se posicionando, falando, escrevendo, o enfrentamento é libertador. Aos poucos, com o tempo – confiem no tempo, por favor, acreditem em mim – encontramos meios de desviar ou não ser atingidos tão profundamente pelas palavras que se alojam em nosso corpo e nos inibem de viver. Se atingidos, conseguimos superar mais facilmente, com o apoio de familiares, amantes, amigos e profissionais da saúde. Conquistamos alguma liberdade e vamos encaixando a alma ao corpo e nos sentindo bem no quebra-cabeças que refletimos no espelho.

Hoje as costas já doem menos.

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Leia mais sobre a notícia do jovem casal gay clicando aqui;

Conheça o trabalho de Xavier Luchessi;

A memória e o imortal

Por Felipe de Albuquerque

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Ilustração do sul-coreano Gynree (2016)

O lugar da memória é o lugar do imortal. Quando recordamos um evento, uma situação, conseguimos relativizar o tempo e resgatar para o presente as experiências que vivenciamos. Através de registros, fotografias, documentos, podemos compartilhar estas memórias. E elas se tornam imortais também em outras vidas.

Bom ou ruim, ao lembrarmos de acontecimentos significativos, trazemos para perto o passado mais longínquo ou o instante imediato que precede o há pouco. O que eu escrevo e o que você lê neste instante já ficou para trás. E tais informações podem ser suficientemente transgressoras para você não descartá-las ao longo dos dias, dos anos, em meio a inúmeros outros dados que se proliferam a todo instante. Continuar lendo “A memória e o imortal”