Dicionário para vagabundos

Por Ana Flávia Corrêa 

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Ilustração de Polly Nor

“Estou disposto a escrever o meu próprio dicionário. O seu único objetivo seria o de desmistificar os eufemismos. Não deverá ser uma tarefa fácil, eu bem sei. Mas urge que seja feita o quanto mais cedo for possível, principalmente porque estamos sendo tomados por uma onda de falsa sinonímia, muito bem orquestrada para poder reverter o impacto do sentido de tudo aquilo que nos incomoda.

Não posso dizer que seja uma hipocrisia esta ação (que, aliás, é muito bem planejada), porque já me peguei a mim mesmo mudando as minas referências com o temor de ofender a alguém e sobretudo: com o medo de me encarar como o que de fato sou. A coisa acontece mais por temeridade do que por falta de escrúpulos. Outro dia, por exemplo, troquei mais de uma vez o termo “gordo” por “cheiinho”, e mesmo sentindo todo o incômodo que esta palavra horrível pode causar, não fui capaz de eliminá-la de vez do meu vocabulário. Em outro caso, insisti a me apresentar-me como “morador de rua” quando, na verdade, não há nenhuma dúvida de que eu seja, de fato, um vagabundo ou pedinte.

Não quero, contudo, que os futuros leitores do meu dicionário de eufemismos, me confundam com algum ativista do politicamente incorreto, este movimento nulo, mais baseado na vontade de ofender do que na fidelidade ao nome das coisas. Eu, como um bem aventurado sem teto, me fio unicamente no poder das palavras e na força que elas possuem para nos explicar o mundo – ou pelo o menos para nos oferecer um sentido dele.

Para que nenhum imbecil venha a me tomar como base teórica, quero tratar de avisar (já nos preâmbulos) o que é e o que não é um eufemismo factoide. Um eufemismo não se trata somente de uma palavra que substitui outra, mas de uma palavra que toma o lugar da verdadeira. Como temos uma língua diversificada – e isso é ótimo – as palavras estão em maior número do que as coisas, e por isso é que constantemente elas brigam por espaço, por um posto.

A palavra sincera é aquela que não ofende, nem elogia. O eufemismo tanto pode ofender por omissão quanto pode elogiar por missão. Quantas vezes a simples troca de um termo por outro já ofendeu pelo medo de ofender? E quantas vezes a troca de um termo por outro elogiou e maquiou o verdadeiro sentido da coisa? Pense, por exemplo, na palavra “aconchegante” no lugar de “apertado” que mesmo eu, que não tenho casa, sei distinguir muito bem. Agora, pense em quando como dizemos “diferente” quanto queremos dizer “feio”, a ofensa acaba sendo ainda maior.

Os problemas, na verdade, não são as palavras, mas quem se apodera delas. Se um mendigo como eu pudesse dominar tudo quanto diz o mundo invariavelmente seria outro, não digo que as coisas se inverteriam, mas tenho certeza de que, ao contrário do que dizem, poderíamos ver com mais clareza olhando de baixo. Isso porque é só nas margens, nas calçadas  nas sarjetas que conseguimos ver as coisas tendo como parâmetro o isolamento e não a centralidade.  Nós falamos para conferir sentido a nós mesmos e não àquilo de que falamos.

As palavras, a exemplo dos vagabundos, tem um papel de espectadoras e são usadas como ferramentas contra o mundo. No entanto, volta e meia esta gente que se caga diante de um vocábulo sincero, de um antônimo, de um termo forte, tem de se aguentar com um desses bêbados que se levantam trôpegos e começam a causar estardalhaço no ambiente iludidamente organizado da cidade.

O “horror” – vejam que palavra linda – é como aquele pedinte que se rebelou contra os dez centavos que lhe foram arremessados na calçada  quando a senhorinha tinha uma carteira repleta de notas vermelhas.

A “síncope” – tão forte esta – é exatamente idêntica ao casal de catadores de latinha que brigam por um litro de cachaça no meio da rua empoeirada da periferia.

O “distúrbio” – meu deus, que linda! – não passa de mais um aleijado que atravessa a rua com o edredom nas costas enquanto os carros buzinam para que ele termine logo a sua jornada de uma perna só.

Assim, já começo a organizar as primeiras palavras, uma por uma, com os casos comuns de trânsito que posso ver todos os dias, bastando abrir os olhos. E oferecendo em segundo plano o eufemismo referente que qualquer vagabundo poderá mais tarde consultar e protestar contra quem lhe chamou de “dependente químico” ou “zé droguinha” ou qualquer outro termo que procura disfarçar o que de fato somos de verdade.

Quero com isso não somente evitar as miragens, mas também ir em busca da proximidade do sonho – aquela instância de felicidade que pouco a pouco os desgraçados vão reconhecendo a distância e os vencedores procuram através de lupas. Quem sabe se com isso não alcanço algum poeta (gente ainda muito rara) que tenha certa afeição pelas coisas e pelas palavras incertas que vagam deliberadamente sem casa.”

* Lázaro Thor Borges é natural de Paraíso do Tocantins, mas reside em Mato Grosso há 11 anos, aproximadamente.

Aprendeu a ler muito cedo, com a mãe, e o escrever veio como consequência de uma mente inquieta.

Quando criança enterrou seu caderno de poemas – do homem aranha – pra não ter que olhar para seus manuscritos.

Hoje, tem o ímpeto de joga-los fora depois de datilografa-los na máquina de escrever.

Para ele, injustamente, todos os seus poemas são horríveis.

Sabe quase tudo de pássaro, planta e é um arsenal de conhecimentos inúteis, dos quais desembesta a falar sobre com alguns copos de cerveja ou café.

É sonhador e, nas horas vagas, jornalista.

TOP 10 – Músicas sobre leilões

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Obra de Ricardo Cavolo.

Por Juliana Fernandez

Nunca participei de um leilão, seja comprando ou leiloando algo. Entretanto, conforme fui crescendo, fui notando o papel do evento no imaginário popular e musical. Especialmente quando se trata de músicas de amor e sofrimento, que por sorte ou azar, são as minhas preferidas. Parece que todo letrista já pensou em leiloar o coração uma vez ou outra e a gente cria empatia pelo coitado.

Quanto mais melosa, melhor é a canção.Entretanto, até em algo tão segmentado como músicas de leilão, é possível encontrar diferentes significados, gêneros e sentimentos. Nem todas as músicas desse Top 10 são sobre amor sofrimento, mas todas são sobre leilão.

Leilão – Chico Aguiar

É samba de Chico Aguiar e é sobre leilão e sofrimento. No primeiro segundo da canção eu já tô com o dedinho pra cima cantando junto.

Leilão – Escurinho

Escurinho é um cantor, compositor e percussionista de Serra Talhada, Pernambuco. Ou seja, música de leilão com qualidade e sotaque pernambucano.

O Leilão – Alfredo Marceneiro

É fado português. Eu não conheço muito do gênero para falar “olha só gente esse é um fado dos bons”, mesmo assim eu gosto muito da música. A voz de Alfredo Marceneiro é única.

Leilão – Os Urtigas do Nordeste/ César Menotti e Fabiano

Leilão ficou conhecida na voz de César Menotti e Fabiano, mas a versão d’Os Urtigas do Nordeste é minha preferida. Tanto pela malemolência quanto pelo nome do grupo musical. Entretanto, esse diamante da música brasileira não se encontra no Youtube. Por isso o vídeo da versão mais famosa.

The Auction – Holger

É em inglês, mas a banda é brasileira. Foi a primeira música de leilão (em especial leilão de coração) que eu me lembro ter escutado. Desde então minhas orelhas procuram estar sintonizadas em músicas de leilão.

O Leilão do Lote 77 – Envydust

É um instrumental sobre leilão da banda Envydust, que era de metalcore até encerrar as atividades em 2010. Ou seja, escuta quem gosta de metalcore, ou escuta quem gosta de música de leilão, como eu.

Fiz Leilão de Mim – Tony de Matos/ Rodrigo

Outro fado na lista. Tony de Matos foi um fadista e ator português. Música bem boa pra sofrer. Também não tem a versão do Tony de Matos em vídeo. Poxa, Youtube. Mas segue a versão de Rodrigo.

Leilão – Canção e Louvor

Canção e Louvor é um duo gospel. Ou seja, a música é de leilão e fala de deus e tal. Não é minha área, mas o início é bem bonito. Se você gosta de gospel, escuta. Se não gosta, não escuta.

Leilão – Grupo Dominó

Tudo sobre essa música é ótimo, especialmente nessa apresentação no Xou da Xuxa em 1990. Eu já tive o corte de cabelo de todos os integrantes.

Leilão – Zeca Pagodinho

Q U A L I D A D E, pra fechar esse Top 10 com chave de ouro.

Como os personagens de Breaking Bad se apresentam ideologicamente

Por Thiago Mattos

Breaking Bad é uma série de televisão norte-americana que foi ao ar entre 2008 e 2013. A história, criada e produzida por Vince Gilligan, é sobre um inteligentíssimo e frustrado professor de Química, Walter White, que ao descobrir um câncer terminal, começa a produzir e vender metanfetamina com Jesse Pinkman, seu ex-aluno medíocre.

Walt entra no mundo do crime com o pretexto de garantir o futuro financeiro de sua família: a esposa grávida Skyler e o filho com paralisia cerebral Walter Junior. Para deixar tudo ainda mais interessante, Skyler tem uma irmã cleptomaníaca chamada Marie, casada com Hank Schrader, um policial da Drug Enforcement Agency (DEA) na pacata cidadezinha escolhida para a trama: Albuquerque, New Mexico.

Assim como The Walking Dead, série que analisamos no artigo anterior, Breaking Bad foi exibida no canal AMC e suscita algumas reflexões filosóficas e políticas. Na coluna de hoje, vou falar de Jesse, mas sobretudo de Walter e Hank.

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Hank e Walt mostram jeitos diferentes de enxergar o mundo (Reprodução AMC)

Hank, Walt e os charutos cubanos (Alerta Spoiler)

O policial Hank é retratado como um conservador americano. Conta piadas moralistas, faz o estilo ‘tiozão’ nas reuniões de família e passa a imagem de ‘linha-dura’ no trabalho. Com o passar da história, algumas de suas hipocrisias vão sendo reveladas.

Um dos diálogos mais brilhantes (a série inteira é brilhante) acontece no último episódio da primeira temporada. Após Marie presentear Skyler com uma tiara bastante cara (pra bom entendedor…), Hank fica incomodado com a situação e pergunta se Walt não teria algo ‘mais forte que cerveja’ em sua casa. Assim sendo, ambos vão para o quintal da casa dos White.

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Hank também admite ao filho de Walter que já usou maconha (Reprodução AMC)

Papo vai papo vem e Hank pega um charuto, ficando sem graça ao lembrar do câncer de Walt, mas o químico lhe surpreende e pede um também. Ao perceber que se trata de charuto cubano (proibido até então nos EUA), Walt começa a se deliciar com a situação e instigar frases hipócritas em Hank.

“Fiz um pequeno favor para um colega do FBI” e “Às vezes os frutos proibidos tem o sabor mais doce”, são algumas das pérolas proferidas por Schrader. Trata-se de uma excelente cena para questionar a arbitrariedade com que algumas substâncias são proibidas ou legalizadas, vendo um policial do departamento anti-drogas consumindo um produto ilegal. (Não encontrei a cena com legendas).

Não quero aqui afirmar que tenho antipatia pelo personagem Hank. A série é tão bem construída que podemos citar qualidades, defeitos e contradições em todos os personagens centrais.

Fazendo um paralelo e sem me aprofundar, podemos dizer que Jesse é um personagem bastante humanista, que não aprecia violência e é preocupado com o bem estar de crianças, sofrendo muito quando é impelido a causar danos em outras pessoas.

Mesmo assim, Bbad mostra uma sequência de circunstâncias que levam até uma pessoa de bom coração, como Jesse, a cometer assassinato. A máxima de Rosseau, citada no artigo anterior, valeu para a história de Pinkman.

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BBad constrói Jesse Pinkman como um criminoso de bom coração e cheio de remorso ao machucar outras pessoas. Ele funciona como se fosse a consciência perdida de Walter White. (Reprodução AMC)

O câncer transforma Walter num ultraliberal

Assim como o conservadorismo de Hank, a postura ultraliberal adotada por Walt depois de saber do câncer no pulmão é exposta e criticada. O professor de química se transforma num daqueles lobos de Wall Street, pois mesmo após conseguirem milhões de dólares, só pensam em mais fama e em como fazer os ‘mi’ virarem ‘bi’, com o adendo de que a atividade de Walt é ilegal.

No décimo episódio da terceira temporada (Fly), Jesse e Walter passam boa parte do tempo tentando matar uma mosca que está contaminando a produção de metanfetamina, num dos episódios mais lentos de toda a série.

Em dado instante, ambos fazem uma pausa e começam a conversar. Walt revela que seu câncer ainda está em remissão e que a morte está distante, nesse momento, o professor começa a repensar suas atitudes e lamenta não ter parado (morrido) quando já tinha acumulado dinheiro suficiente; pois Holly (sua filha) já tinha nascido e Skyler ainda não sabia que ele havia se tornado um traficante.

É quando White percebe que já havia ido longe demais e não tinha mais volta. O envolvimento com a barra pesada do tráfico já era enorme e o casamento com Skyler havia ruído. Nessa reflexão, Walt se dá conta da intensa degradação humana pela qual já atravessou e os roteiristas colocam uma crítica à busca incessante pela fama e dinheiro, mesmo quando esses elementos já não se fazem mais tão necessários.

A cena é triste (não encontrei um vídeo dela), pois Walt percebe que se desviou do plano original, cedendo a uma vida cheia de adrenalina, perigos e busca por mais dinheiro e poder a todo custo.

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A famosa cena em que Walter obriga o grupo rival a falar o nome dele (Heinsenberg), evidencia o quanto o personagem já se desviou do curso original que tinha planejado (Reprodução AMC).

Protocolo do coração

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Ilustração de Jean Genet, 1929.

Ficar, transar, conquistar e partir

Por Marcelo Dantas 

Adão era velho e imperfeito. Nem toda velhice recebe como prêmio a sabedoria. No uniforme da vida, ostentava as medalhas da calvície e das rugas. Alberto, por sua vez, era jovem e ansioso. Sempre ligado, com o brilho de uma tela no rosto. Adão gostou de Alberto — mas o gostar é um tímido mistério que se revela aos poucos. Adão gostou de Alberto como o homem gosta do canto do passarinho — não se questiona a beleza da melodia. Apenas se gosta.

Conversaram e ficaram. O primeiro beijo arrepiou o espírito de Adão. A paixão nova é a prova de que o aprendizado é infinito. E transaram. E foi bom. E Alberto fez Adão tão feliz.

Alberto, porém, parecia estar meio-presente nos encontros seguintes. Presenteava Adão com meios-abraços e meios-beijos. Mas não se vive pela metade. Não se vive meias-paixões. E Adão buscava o inteiro. Adão buscava toques inteiros. E carinhos inteiros. E olhares inteiros. Aos poucos, os encontros se tornavam encontr. E, depois, encon. Um dia, tornaram-se apenas en. E, por fim, desapareceram.

“Pedro, o Alberto não me atende mais.”

“Adão”, murmurou Pedro. “São três da manhã. Se me ligar de novo a essa hora, eu é que vou parar de falar com você.”

“Fico achando que fiz alguma coisa errada.”

“E fez. Não se liga para os outros de madrugada. Conversamos amanhã. Tchau.”

Mas Adão não dormiu. Pensando em Alberto, Adão se recordava de como, aos 20, temia os olhares dos outros, os comentários dos outros e, enclausurando seu próprio espírito, confinava-se numa redoma.

“Pedro, o Alberto está numa redoma. Lá, não se percebe que o fruto é, primeiro, uma flor. E que a flor é, antes, uma semente.”

“Adão, o que te falei sobre me ligar a essa hora?”

“Com medo de envelhecer, o Alberto antecipa rugas. Com medo de incomodar, ele se atrapalha. Com medo de demonstrar, ele se afoga em orgulho.”

“Adão, vocês pareciam estar juntos, mas transitavam em planos diferentes. E não há que se falar em culpa. São apenas desencontros. Durma bem.”

E Adão continuava acordado.

“Pedro, eu me sinto frustrado.”

“Adão, eu me sinto sonolento.”

Houve uma pausa.

“Mas, não vou te deixar de mãos vazias. Só quero que me prometa que esta será nossa última conversa nesta madrugada.”

“Prometido.”

“Promessa de dedo mindinho?”

“Fala logo!”

“Adão, todo mundo já foi posto de lado alguma vez na vida, até a pessoa mais atraente e interessante que você possa imaginar. E não há muito o que fazer. As pessoas são complicadas. Buscam coisas diferentes. O que para você foi uma experiência transcendental, para o outro pode ter sido apenas um beijo. O que para você foi um encontro, para o outro pode ter sido apenas sexo. Quando se está confuso, Adão, um novo relacionamento pode se tornar apenas mais um novo problema, e não uma solução.”

“Então eu sou um trouxa.”

“Isso foi uma pergunta?”

“Não.”

“Você é sensível, não trouxa. Adão, eu quero que você agora imagine uma coisa.”

“Diga.”

“Imagine que você receba a chave de uma casa belíssima. Nessa casa, você pode dar festas e jantares. Pode celebrar, beber, comer, fartar-se. Pode transar em todos os cômodos. Pode explorá-la como tiver vontade. Por dado momento, a chave estará com você e você cuidará dessa casa como entender melhor. Mas, um dia, pedem a chave de volta. Você ficaria frustrado ou feliz pelos momentos que lá passou?”

Houve silêncio.

“Adão, a vida é assim. Às vezes, devolvemos a chave. Outras vezes, mudamos para a casa. Ou ficamos na nossa. Mas sabe o que é mais importante? Aproveitarmos a estadia.”

Adão desligou o telefone. E, sentindo-se finalmente em sua própria casa, adormeceu.

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* Marcelo Dantas Ribeiro é bacharel em Direito pela UFMT | mdrlv@me.com

Considerado crime, aborto é praticado às escuras e traz riscos para mulheres

Por Juliana Fernandez

Abortion

Ilustração de Abigail Goh

Aos 21 anos, Mariana* viveu um pesadelo. A jovem já era mãe de um bebê de nove meses, fruto de um relacionamento anterior, e descobriu estar grávida do então companheiro. A relação mantida com o então namorado era abusiva. Ela sofria agressões verbais, e depois também passou a ser agredida fisicamente. “Ele me colocava como a pior mulher do mundo. Ele chegou a me enforcar, chegou a bater na minha cabeça com uma carteira de cigarro, por posse. Ele achava que eu era posse dele”, lembra a jovem, atualmente com 23 anos.

Desde o momento em que descobriu a gravidez, Mariana soube que não queria gerar um segundo filho. “Quando eu descobri que estava grávida, rejeitei a criança. Fui fazer o ultrassom com o pai da criança, e quando eu vi aquela imagem no exame, senti muita raiva. Não foi mágico como da minha primeira filha, que não foi uma gravidez desejada, mas eu a via no ultrassom e me emocionava, por saber que tinha um ser vivo dentro do meu ventre, que era meu”, relata.

Em meio às agressões verbais e físicas, Mariana decidiu que a melhor saída seria abortar. Ela revela que sentia raiva e ódio de toda a situação em que estava inserida. Durante a sexta semana de gestação, ela definiu que seria melhor não ter aquele filho. “Muito da minha decisão foi baseada no fato de que o pai era um cara que batia em mim e já havia chegado a pontos extremos de violência comigo. Eu não queria ter qualquer tipo de ligação com ele. Era uma escolha minha”.

A jovem decidiu adquirir medicamentos para interromper a gravidez. Ela encontrou o remédio Cytotec, utilizado para a prática do aborto, no popular Shopping dos Camelôs, em Cuiabá, no bairro do Porto. “Eu comprei conforme vi na Internet, ninguém me ajudou. E eu falei para todas as pessoas que eu achei que poderia contar. Contei para minha tia, para o meu pai, e para meus amigos mais próximos. E eles não tinham opinião sobre isso, eram neutros. Eu falava ‘tô gravida e não quero ter esse filho’, e a resposta deles era sempre ‘é, você tá gravida agora, mas podia ter evitado’. Era muito leviano, eles não queriam se posicionar”, explica.

O remédio foi guardado por ela durante duas semanas. O pai de seu segundo filho sabia que ela estava gravida, e também era consciente de que Mariana havia comprado o remédio. “Eu sofri ameaças de morte por isso, então para mim estava muito difícil. Eu tinha muito medo do que poderia acontecer comigo depois. Ele falava para mim que se eu abortasse o ‘filho dele’, ele iria me matar”.

Depois de conversar com outras mulheres que realizaram o mesmo procedimento, ela teve certeza de que abortaria. ”Fiz dentro da minha casa. Estavam lá eu, meu pai e minha filha. Tem mulheres que colocam na vagina, mas li que isso poderia deixar rastros de comprimido branco dentro da vagina e os médicos poderiam ver. Eu coloquei os quatro comprimidos embaixo da língua, deixei meia hora e fui deitar. Em momento algum pensei ‘ah, estou indo contra deus’, só pensei em resolver”.

Mariana acordou com dores abdominais, que segundo ela, pareciam cólicas. Era o útero fazendo as contrações. “Porque o objetivo do Cytotec é contrair, fazer movimentos de contração. Então eu comecei a sentir a dor, e foi quando eu percebi que estava acontecendo. O tempo todo eu fui muito fria. Se eu queria resolver aquele problema, eu não poderia agir com emoção. Eu só queria que aquela situação terminasse logo”.

“Eu estava sozinha no meu quarto. Não tive apoio de ninguém, ninguém estava perto de mim. Coloquei uma toalha no meio da minha perna e esperei o sangramento. O meu medo era de uma hemorragia, porque tem mulheres que liberam muito sangue. Mas foi tranquilo. Toda hora ia ao banheiro e saía um pouquinho de sangue, que ia aumentando. Parecia sangue de menstruação, não foi nada demasiado. E eu senti a hora que saiu”.

Ela conta que a saída do feto foi ‘como um coágulo de menstruação’. “Eu senti um pedaço maior sair e cair dentro do vaso. Eu limpei, olhei pro vaso e vi que não era só o liquido. Era uma coisa concreta, muito pequena. E dei descarga”, lembra.

Ao final da experiência, Mariana sentiu-se aliviada. Para ela, era o final de um problema. “Eu falei ‘acabou, agora eu vou poder viver novamente’”.

A história de Mariana é mais uma entre milhares. No ano de 2010, a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA) realizada pela Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, mostrou que aos 40 anos, uma em cada cinco mulheres já fez ao menos um aborto na vida. Mesmo com esse número e o avanço de políticas sociais no Brasil, o aborto continua sendo um tabu no país.

Decisão do STF sobre caso de aborto

Na noite da última terça-feira (29), a primeira turma do STF julgou um caso de pessoas de Duque de Caxias (RJ) que supostamente praticaram o crime de aborto com o consentimento da gestante e formação de quadrilha. Ao apresentar seu voto, o ministro Luís Roberto Barroso acrescentou que os artigos do Código Penal de 1940 que tipificam o crime de aborto não são compatíveis com a Constituição de 1988. Por ser anterior à Constituição, tais artigos devem ser interpretados excluindo a incidência de crime quando a interrupção da gravidez é voluntária e também é realizada no primeiro trimestre da gestação.

De acordo com Barroso, criminalizar o aborto até o terceiro mês de gestação viola a autonomia da mulher, seu direito à integridade física e psíquica, seus direitos reprodutivos e sexuais; e sua igualdade de gênero. Além disso, a criminalização causa discriminação social, especialmente sobre as mais pobres. Mulheres como Mariana. Apesar da decisão valer exclusivamente para o caso de Duque de Caxias,  abre brecha para que mulheres como Mariana possam, futuramente, ter o direito de escolha sobre seu corpo e não serem discriminadas por isso.

Gastos com abortos ilegais

O Sistema Único de Saúde (SUS) atende 100 vezes mais casos de mulheres que sofreram complicações com aborto clandestino do que as que realizaram abortos legais em todo o Brasil, conforme divulgou o Ministério da Saúde. Atualmente, o aborto é legal pelo Código Penal em três hipóteses: quando a gravidez significa risco à vida da gestante; ou quando a gravidez for o resultado de um estupro. Neste caso, o procedimento é concedido com o consentimento da gestante, que caso incapaz, pode ser representada por seu representante legal. Também é permitido o procedimento quando se constata anomalias fetais.

Em 2015, foram registrados 1.600 abortos legais no país, 94% deles provenientes de estupros. Já o número de atendimentos referentes a complicações causadas por abortos clandestinos, no ano passado, chegou à marca de 181 mil mulheres. Dessas, 59 faleceram.

Somente em Mato Grosso, no ano passado, foram registrados, no SUS, 1.467 procedimentos por curetagem pós-aborto, além de 111 procedimentos por AMIU, que é realizado por aspiração manual intrauterina. De acordo com a Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso, nestes procedimentos foram gastos R$ 341,9 mil. A pasta declarou não possuir banco de dados específico para aborto legal.

Presidente do Sindicato dos Médicos de Cuiabá (Sindimed), Eliana Siqueira discorre sobre o assunto. “O aborto é um problema de saúde pública e deve ser discutido amplamente nas políticas de saúde pública. Muitas mulheres férteis morrem em abortos. O aborto ilegal é uma epidemia invisível, na qual mulheres morrem e ninguém vê. Precisamos de soluções viáveis que não são discutidas amplamente”, relata. Até hoje o Sindimed-MT não discutiu o aborto em nenhuma de suas pautas.

A realidade é que em rápida pesquisa em buscadores como o Google, pesquisando palavras-chave como “aborto como fazer”, qualquer pessoa tem acesso a sites confiáveis que ensinam passo a passo como realizar o procedimento e até oferecem remédios. Atualmente, é fácil abortar de maneira segura no Brasil, basta a mulher possuir internet e um bom cartão de crédito. Todavia, não são todas as mulheres que se encaixam nesse perfil. Essa discrepância entre as opções dadas às mulheres é o que causa as mortes por abortos clandestinos entre as mais pobres.

Classe social e o aborto

Mais de 1 milhão de mulheres entre 18 e 49 anos já fizeram aborto no Brasil, segundo dados do IBGE. A maior parte das que optaram pelo procedimento é branca ou parda e tem curso superior incompleto. Segundo projeto realizado pela Ipas Brasil e o Instituto de Medicina Social (IMS), apesar de ser a minoria que realiza abortos, as mulheres negras estão submetidas a um risco de mortalidade em consequência de abortamento inseguro três vezes maior que as mulheres brancas. Esse risco é associado a condições socioeconômicas desfavoráveis para a mulher negra.

Conhecido em todo o país, o médico Dráuzio Varella se pronunciou recentemente sobre esse tópico. “O aborto já é livre no Brasil. É só ter dinheiro para fazer em condições até razoáveis. Todo o resto é falsidade. Todo o resto é hipocrisia”, comentou Varella, que também afirmou que “A mulher rica faz normalmente e nunca acontece nada. Já viu alguma ser presa por isso? Agora, a mulher pobre, a mulher da favela, essa engrossa estatísticas. Essa morre. Proibir o aborto é punir quem não tem dinheiro”.

Professora de psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso, Vanessa Furtado comenta a proibição relativa do procedimento. “Ao passo que o aborto não é legalizado, esses remédios são vendidos livremente pela internet sem qualquer tipo de fiscalização. Agora, para quem o aborto é realmente ilegal? Qual é a população que tem acesso a essas informações na internet e condições financeiras para comprar esses remédios? A classe mais pobre e as populações marginalizadas que não têm condições de terem assistência e comprar o medicamento”, explica.

*O nome da jovem citada nesta reportagem foi alterado a pedido dela. Com medo de ser alvo de represálias, ela solicitou que sua identidade não fosse revelada.

Reportagem originalmente publicada no jornal Sô Foca, feito durante a disciplina de Jornal Laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Top 10 músicas chicletes duráveis

Por Yasmin Souza

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Ile Machado

Há um grande mito que somente músicas ruins tem o direito de serem denominadas como chicletes. Pois oras, ser música chiclete pra mim é privilégio, é o hit, é aquele refrão que você nunca esquecerá na vida, que gruda e se apropria da sua mente por um tempo inestimável.

Durante uma viagem minha em Olinda, na busca de apreciar uma boa música numa noite de quinta-feira naquela cidade maravilhosa. Tinha a tal da quinta do vinil na Casa do Cachorro Preto, um lugar incrível e autêntico, que inclusive, gostaria de mais lugares acolhedores musicalmente assim em minha cidade. Eis que apreciando os discos escolhidos, toca Beatles, foi uma comoção geral, tocar Hey Jude! é tocar lá no fundo do coração, e a música ativará uma parte de seu cérebro em que você, provavelmente, lembrará dela no dia seguinte, feito chiclete, chiclete de sentimentos, a música te gruda, interliga você com alguma felicidade interna. Foi uma alegria no sorriso de cada um esboçando, aquela vontade de cantar junto, e de repente minha amiga soltou:

– Porra, Beatles não tem jeito, né… Pode passar tempos sem ouvir, mas quando toca… toca no fundo!

Realmente, Beatles é chiclete, nunca deixará de ser, foi uma das pitadas que adoçou com gostinho de eternidade cada música deles. Bom é chiclete que dura mais do que um ano.

Pois, quebremos essa grande balela, deixo de presente um top 10 das minhas músicas chicletes, antigas e atuais e de boa qualidade (creio eu).

Se gostar é porque temos que ser amigos de Spotify.

         


A memória e o imortal

Por Felipe de Albuquerque

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Ilustração do sul-coreano Gynree (2016)

O lugar da memória é o lugar do imortal. Quando recordamos um evento, uma situação, conseguimos relativizar o tempo e resgatar para o presente as experiências que vivenciamos. Através de registros, fotografias, documentos, podemos compartilhar estas memórias. E elas se tornam imortais também em outras vidas.

Bom ou ruim, ao lembrarmos de acontecimentos significativos, trazemos para perto o passado mais longínquo ou o instante imediato que precede o há pouco. O que eu escrevo e o que você lê neste instante já ficou para trás. E tais informações podem ser suficientemente transgressoras para você não descartá-las ao longo dos dias, dos anos, em meio a inúmeros outros dados que se proliferam a todo instante. Continuar lendo